<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232</id><updated>2011-11-17T16:05:20.919-08:00</updated><title type='text'>Blog do Sasha Cavalcante</title><subtitle type='html'>Sasha Cavalcante é músico e jornalista. Estudou numa escola de jazz em Moscou e trabalhou em vários rádios e jornais de Portugal.
O conteúdo deste blog é o rascunho do livro que Sasha está escrevendo sobre os tempos em que viveu na ex-URSS. Um relato em que o autor não está preocupado em tornar-se um historiador, mas, antes pelo contrário, descreve fatos como um mero repórter de um tempo que fez história.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>34</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-173919079754883405</id><published>2011-01-14T14:59:00.001-08:00</published><updated>2011-01-14T14:59:56.266-08:00</updated><title type='text'>De saco cheio</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Nos tienen hasta las huevas&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Se havia alguma coisa que os responsáveis políticos da Patrice Lumumba não dispensavam, nem mesmo durante as férias, eram os meeting políticos. Já em Moscou era a mesma coisa. Toda e qualquer atividade era sempre anunciada com discursos de louvor ao regime. Os estudantes que integravam as células dos partidos comunistas e organizações de esquerda de seus países aproveitavam este gosto dos burocratas da universidade para organizar atos semelhantes. Uma data importante, um dia de libertação nacional, qualquer coisa que fosse servia de pretexto para se pedir um auditório à reitoria e organizar um sessão política. Estas cerimônias eram inócuas, ou seja, não produziam qualquer efeito nalguma revolução que estivesse prestes a acontecer, mas eram bem vistas perante a universidade e serviam para alguns estudantes se firmarem perante os soviéticos como grande revolucionários. Pelo menos, eles assim o pensavam.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Esses comícios em pequena dimensão eram sempre seguidos de um ato cultural. O material humano da Lumumba, os ritos e tradições de cada povo, era como que colocado numa vitrine, em exposição curiosa, associado à luta de classes como fator contributivo no processo revolucionário. Para desenvolver atividades de caráter cultural é que existia o Interclube da universidade, onde duas dedicadas professoras tratavam de&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;comandar o que se podia chamar talvez de “núcleo artístico”. Era como uma companhia de dança e música, em que participavam os estudantes de todo país que tivesse número suficiente de alunos para organizar um número qualquer. Os colombianos dançavam a “cumbia”; os peruanos tinham um grupo de música andina; havia um grupo de danças africanas, de vários países; os sul-africanos tinham um coral espetacular, daqueles que Paul Simon utilizou no seu disco “Graceland”; os brasileiros dançavam o samba e por aí afora. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Já antes das férias, comecei a ser convidado a participar da caravana de artistas da Lumumba. Aos sábados, o grupo costumava se apresentar em clubes de bairros de Moscou, em auditórios de fábricas, para plateias de cidadãos comuns, que enchiam as salas para ver o que de certa forma era um espetáculo estrangeiro. Para mim, foi uma experiência interessante e bastante enriquecedora, que propiciava encontros inauditos, pois os russos sempre queriam dar uma palavrinha no final aos artistas. Nos anos em que estive na URSS, me apresentei, na maior parte das vezes sozinho ao violão, nos mais variados palcos. Cantei para platéias de veteranos da 2ª guerra mundial, para velhotes de lar de idosos, para russos da periferia de Moscou, para os pioneiros* e, inclusive, para os guerrilheiros do Arafat*. Os russos gostavam e aplaudiam muito, porque são um povo que respeita profundamente a cultura de outros povos, com uma intensa curiosidade por tudo o que fosse importado, ainda mais naqueles tempos de informação filtrada. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Ao mesmo tempo que dava um certo gozo participar nestas coisas, pois sempre era uma oportunidade de passear, conhecer outras pessoas e lugares, havia que se ter uma certa paciência em relação à politiquice e aos atores do ato anterior do programa. Quando estávamos na Moldávia, ninguém gostou quando, em pleno ensaio para a sessão de encerramento das férias, um dos professores exigiu que se formasse um grupo para se cantar um canção que fosse típica da América Latina, pelo que resolvemos fazer uma pequena vingança contra o Big Brother. Formamos um côro, acompanhado de vários violões e ensaiamos o clássico Guantanamera. Só que, por sugestão de um costarriquenho, substituímos o refrão por “hasta las huevas, nos tienen hasta las huevas”, que, traduzindo, quer dizer algo assim como “até os ovos, nos têm até aqui pelos ovos”. Quando nos apresentamos, no anfiteatro ao ar livre do campo de férias, depois do famigerado meeting, os estudantes latinos desataram às gargalhadas, o que fez com que uma das professoras do Interclube viesse me perguntar mais tarde o que se tinha passado, o que havíamos nós cantado para obter aquela reação da platéia. “Nada”, afirmei, “devem estar contentes porque vamos voltar para casa”, continuei, com vontade de me rir. Creio que não a consegui convencer, pois balançou a cabeça e murmurou algo como “ah, seus malandros”. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p style="color: rgb(255, 255, 255);" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-173919079754883405?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/173919079754883405/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=173919079754883405' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/173919079754883405'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/173919079754883405'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/de-saco-cheio.html' title='De saco cheio'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-6617773183814590468</id><published>2011-01-14T14:56:00.000-08:00</published><updated>2011-01-14T14:57:22.392-08:00</updated><title type='text'>A divisão do mundo e a velha ordem mundial</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;O Olimpo na Terra&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Ialta, estrategicamente localizada numa pequena baía na península da Criméia, no Mar Negro, é uma pequena cidade cercada por montanhas, com muito sol e temperaturas amenas o ano inteiro. Lugar privilegiado pela natureza, onde se cultiva tabaco, uvas e frutas cítricas desde o século XII, quando venezianos e genoveses se instalaram na península, a Criméia passou de mãos em mãos no decorrer dos séculos até ser entregue à Ucrânia durante a era soviética, sendo hoje o segundo&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;porto internacional daquele país a seguir a Odessa. Manuscritos de autores gregos contam que, entre os séculos X e III a. C., viveu na região um povo chamado Tauri, que se dedicava à pesca, agricultura e pecuária e também à pirataria em nome da deusa Deva, dedicando-lhe sacrifícios humanos. Um senhor feudal russo, de nome Fiodor, entregou a Criméia a um sultão turco, em 1475, tendo sido tomada de volta pela Rússia em 1783. Para escapar do rigoroso inverno moscovita, os czares russos escolheram o lugar como a sua residência de verão, uma tradição que foi mantida pelos líderes do PCUS. Com o poder soviético, virou o local de repouso por excelência dos russos, que passaram a construir sanatórios, termas e casas de descanso na península. No outono de 1941, foi ocupada pelos alemães no âmbito da segunda grande guerra, tendo sido libertada após sangrenta batalha em 16 de abril de 1944. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Região disputada por reis e piratas desde tempos remotos, não é de admirar que os líderes das três potências que estavam a derrotar os exércitos de Hitler tenham escolhido Ialta para, em fevereiro de 1945, fazer planos antecipados para a partilha do mundo. No palácio Livadia, mandado construir por Nicolau II, reuniram-se Franklin Roosevelt, presidente norte-americano, Winston Churchill, primeiro-ministro britânico, e o anfitrião Iussef Stálin, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Em cima da mesa, na agenda dos trabalhos da conferência, a divisão das zonas de influência da Europa e a criação de uma nova ordem internacional que viesse substituir a fracassada Sociedade das Nações*.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Quando os Aliados se reúnem em Ialta, entre 4 e 11 de fevereiro de 1945, a vitória contra os países do Eixo era já uma certeza. A Alemanha fora ocupada e não resistiria muito mais tempo. A Itália se rendera e o Japão ainda preocupava os Estados Unidos, que queriam neste encontro envolver a URSS na guerra contra o país do Sol Nascente. Como a política americana naqueles tempos era de não ingerência nos países europeus, Roosevelt deixou que Stálin silenciosamente colocasse a sua pata sobre a Europa do Leste, apesar das tentativas de Churchill de fazer pesar a balança para o outro lado, tentando incluir uma França em frangalhos no grupo dos países vencedores, com poder político-diplomático para dar cartadas na reconstrução do continente. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;A questão central da partilha da Europa envolveu a Alemanha e Polônia. Decidiu-se que o território germânico seria dividido em três zonas de ocupação - o leste para a URSS, o sul para os EUA e o oeste para a Grã-Bretanha - e, no que toca à Polônia, Roosevelt e Churchill aceitaram um governo imposto por Moscou e recortaram o país de tal forma que ficou irreconhecível, cedendo um terço do território à URSS, incluindo cidades importantes como Vílnius, Brest e Lvov. Stálin e Roosevelt acordaram também a divisão dos despojos de guerra na vitória sobre o Japão. A URSS ganhou a posse das ilhas Sacalinas e Curilhas, que ainda hoje pertencem à Rússia, resultando num impasse diplomático que durou dezenas de anos, com a guerra sendo encerrada oficialmente quando Vladimir Putin visitou o Japão em (:XXXXX) e devolveu o arquipélago aos nipônicos. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Os grandes líderes acordaram também em Ialta realizar uma conferência, naquele mesmo ano, em São Francisco, nos Estados Unidos, para criar a Organização das Nações Unidas. Mais uma vez, Stálin adiantou-se no jogo de xadrez que iria redesenhar o mundo no pós-guerra conseguindo que a URSS tivesse direito a três assentos na Assembléia Geral da ONU, sendo representada pela Federação Russa, Ucrânia e Bielorússia. Durante a conferência, o premier inglês tentou a todo custo conter o crescimento da influência soviética na Europa, mas Stálin tinha na mão o trunfo de ter empurrado as&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;tropas nazistas até território alemão e ter ocupado com o Exército Vermelho mais da metade do continente. Churchill sabia que o seu homólogo soviético planejava implantar na Europa de Leste regimes de orientação comunista, mas a Grã-Bretanha estava arruinada pela guerra e, se tinha ainda alguma influência política, era mais pelo peso do Império Britânico do que pelo seu mérito militar durante o conflito. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Na Conferência de São Francisco, em junho de 1954, representantes de 50 países redigiram a Carta das Nações Unidas, criando a organização em 24 de outubro de 1945 com o objetivo de manter a paz e a segurança internacionais, desenvolver a cooperação entre os povos, promover os direitos humanos e as liberdades fundamentais. Foi decidido também criar o Conselho de Segurança da ONU, ao qual teriam acesso somente as grandes potências, cinco delas com lugar permanente e seis com lugar não-permanente. Os países com assento permanente no Conselho de Segurança, os únicos que teriam direito a veto, eram os Estados Unidos, a União Soviética, a Grã-Bretanha, a China e a França.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-6617773183814590468?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/6617773183814590468/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=6617773183814590468' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/6617773183814590468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/6617773183814590468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/divisao-do-mundo-e-velha-ordem-mundial.html' title='A divisão do mundo e a velha ordem mundial'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-7126046788463489175</id><published>2011-01-14T14:55:00.001-08:00</published><updated>2011-01-14T14:55:38.757-08:00</updated><title type='text'>Morris Albert, ou, Maurício Alberto</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Feelings&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Ao final da temporada no Mar Negro, embarcamos no transatlântico Maxim Gorki para um cruzeiro de dois dias que nos levaria até o porto de Odessa, no sul da Ucrânia, com uma paragem na cidade de Ialta, na Criméia. Quando olhamos o navio, nem acreditamos, mas, uma vez embarcados, a coisa mudou de figura. Aos estudantes, não estavam reservados camarotes. Tivemos que nos acomodar na parte de baixo do navio, numa zona onde só haviam poltronas, em meio a dezenas de russos. Até os professores não tiveram direito a uma cama, restando-lhes partilhar a nossa companhia, sem quaisquer privilégios. Tirando este detalhe, a viagem foi ótima, a comida do restaurante era muito boa e as duas noites de luar que passamos no Mar Negro foram inesquecíveis. Interessante foi notar que os russos em férias, apesar da rigidez do regime, comportavam-se em férias de uma maneira diferente do seu cotidiano habitual, onde a sisudez imperava nos locais de trabalho ou universidades. Já em Sochi pude observar que a cidade não era diferente de qualquer estação balnear dos países ocidentais, com as pessoas a andar em calções e chinelos, toalhas às costas, com muito maior descontração e um sorriso pouco habitual, talvez trazido pelo sol. Os russos que tomavam champanhe à beira da piscina do navio, que era bastante luxuoso, faziam grande algazarra, com brincadeiras talvez um pouco infantis, jogando-se uns aos outros na água. Pela conduta e pela maneira com que se expressavam, via-se que eram pessoas normais, simples trabalhadores, gozando merecidas férias no final de um ano operando numa indústria ou, quiçá, na construção civil. Para um médico ou professor universitário, seria certamente uma despesa maior no seu orçamento usufruir de semelhantes férias. Por outro lado, a elite soviética, membros do comitê central do PCUS, astronautas ou artistas famosos, gozava de privilégios um pouco maiores. Muitos tinham iates e lanchas, casas de descanso privadas, que lhes eram retirados quando caíam em desgraça. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Na primeira noite de viagem, quando assistíamos ao show no restaurante do navio, Marcos, Zau e eu apanhamos um grande susto quando o cantor de serviço, acompanhado por uma pequena orquestra, interpretou a canção &lt;i style=""&gt;Feelings&lt;/i&gt;, tão nossa conhecida. Até aquele momento, não havia me dado conta de como esta música do brasileiro Morris Albert, ou Maurício Alberto, era conhecida nos quatro cantos do planeta. Até na longínqua Indonésia, anos mais tarde, o ministro das relações exteriores, Ali Alatas, foi filmado num karaokê a cantá-la completamente embriagado*. O mais engraçado é que nunca encontrei alguém que soubesse que &lt;i style=""&gt;Feelings &lt;/i&gt;foi composta por um brasileiro. Para quem não sabe, Morris Albert, ou Maurício Alberto, fez esta canção no tempo da ditadura militar, no princípio dos anos 70, quando os principais artistas brasileiros ou foram presos e expulsos do país ou se auto-exilaram por conta própria, em protesto pela situação. Naquela época, a música em português quase desapareceu das rádios e os grupos e artistas adotavam nomes estrangeiros e passaram a cantar em inglês. Com a adoção da censura prévia, de parte do governo militar, muitas canções de gente como Chico Buarque e João Bosco, por exemplo, foram mutiladas e acabariam por se tornar conhecidas na rádio com a sua versão alterada. Os músicos que começaram a gravar em inglês confessaram décadas mais tarde que mudaram de idioma para não ter problemas com a censura. Quanto às letras das composições, como nem todos dominavam o inglês, eram citações de livros, instruções de algum manual de televisão, bulas de remédio, adaptadas à melodia da canção. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-7126046788463489175?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/7126046788463489175/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=7126046788463489175' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/7126046788463489175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/7126046788463489175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/morris-albert-ou-mauricio-alberto.html' title='Morris Albert, ou, Maurício Alberto'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-2001266659790583617</id><published>2011-01-14T14:53:00.001-08:00</published><updated>2011-01-14T14:53:35.172-08:00</updated><title type='text'>O amigo Serguei</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Serguei, o poliglota&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Num dia que nos deslocamos para visitar a cidade de Sochi, que hoje faz parte da Rússia mas já pertenceu à Georgia*, conhecemos Serguei, um russo com o qual mantivemos contato durante muitos anos, pois viajava frequentemente a Moscou. Marcos, Zau e eu tínhamos ido visitar a casa de Igor, um russo que estudava na Lumumba e, na altura, namorava uma brasileira que estudava história, a Madalena (uns meses depois, os dois casaram, tiveram um filho e, no final do curso, emigraram para o Brasil). Vínhamos os cinco, caminhando pela orla, quando Marcos começou a cantar uma canção qualquer, que não me lembro o nome, e alguém, à nossa frente, exclamou: “Esta canção é do Jorge Ben!”, para nosso grande espanto. Serguei era um russo formado em letras, com cerca de 40 anos, moreno e baixa estatura, que falava fluentemente várias línguas. A sua especialidade eram o inglês e o alemão, mas, por conta própria, estudara português e espanhol. Pela primeira vez na sua vida, tinha a oportunidade de utilizar a língua de Camões, confessou-nos mais tarde, e, o mais incrível, é que o fazia com bastante desenvoltura. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Apesar do curso superior, Serguei não trabalhava numa atividade compatível com as suas habilitações. Por razões políticas, foi afastado do instituto de línguas, em Sochi, onde trabalhou por alguns anos, e agora trabalhava como balconista numa livraria do estado. Para reforçar o orçamento, dava aulas particulares de inglês e alemão. Ao longo dos anos em que vivi na ex-URSS, sempre conheci pessoas como Serguei. As condições para o crescimento intelectual que o sistema de educação soviético e todos aqueles subsídios à cultura possibilitavam aos seus cidadãos não tinham paralelo em país nenhum do mundo ocidental, mesmo entre os países ricos. O próprio Ígor estudava alemão e japonês por conta própria e, em poucos meses de convívio com Madalena, falava melhor o português do que ela o russo. Isto sem falar nos grandes mestres russos de xadrez, nos pianistas, matemáticos e físicos, cujas façanhas sempre transpuseram a cortina de ferro. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Sérguei era o típico russo da intelligentsia clandestina, que fazia parte do universo dissidente, com bons contatos entre a elite de Moscou. Pouco mais de um mês de nos ter conhecido, aparece inesperadamente em Moscou, na residência da Lumumba, nos convidando para passar uma tarde com uns amigos seus moscovitas e conhecer o que era uma “russki stol”, traduzindo, uma “mesa russa”. Com Serguei, tivemos o nosso primeiro contacto com o verdadeiro mundo russo, a sua cultura, os seus hábitos, a forma como cultivam as amizades. Nas suas deslocações a Moscou, que eram frequentes, ficávamos a conhecer pessoas interessantes, amigos seus que eram jornalistas, professores, redatores, em encontros à volta da mesa sempre regados com vodka. Ao mesmo tempo, veio a frequentar também o nosso grupo de amigos da universidade, em visitas frequentes à Lumumba. Anos mais tarde, quando eu já estudava música e frequentava a residência estudantil do conservatório Tchaikovski, Serguei sempre aparecia para as festas e concertos que se realizavam. Perdi o contato com Serguei, com grande pena, depois que tirei umas férias acadêmicas de um ano para tentar arranjar trabalho na Europa Ocidental, em junho de 1988. Quando regressei, passados 15 meses, a minha vida nunca mais foi a mesma. Separei-me de Zau e me perdi nas noites doidas da residência estudantil DUUZI, onde viviam todos os estudantes dos institutos de música e teatro de Moscou e onde residi durante um ano antes de abandonar o curso e emigrar para Portugal. Espero que, um dia, ao ler este livro, Serguei, que não precisa de esperar pela tradução, venha a me contactar por e-mail. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-2001266659790583617?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/2001266659790583617/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=2001266659790583617' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/2001266659790583617'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/2001266659790583617'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/o-amigo-serguei.html' title='O amigo Serguei'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-8307719820932385028</id><published>2011-01-14T14:51:00.000-08:00</published><updated>2011-01-14T14:52:23.752-08:00</updated><title type='text'>Viagem ao Mar Negro</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Próxima estação, Tuapsé&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;No dia 9 de julho de 1984, o grande contingente de estudantes da Lumumba que havia terminado a faculdade preparatória embarcava para uma temporada no sul da Rússia que iria durar até o final do mês. A casa de descanso em que fomos instalados se localizava na costa do mar Negro, entre as cidades de Tuapsé e Sochi, e era um dos milhares de estebelecimentos daquele tipo que haviam sido construídos na região para&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;os trabalhadores soviéticos. Para um russo, conseguir uma estadia numa casa destas era muito difícil, pelo baixo preço dos serviços, que eram subsidiados pelo estado, o que fazia com que milhões de trabalhadores eram candidatos em potencial a uma vaga destas durante o verão. Os habitantes locais aproveitavam a temporada para alugar quartos e casas, num negócio clandestino tolerado pelas autoridades. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Quando chegamos ao local, o professor responsável pelos estudantes latinos resolveu tirar o corpo fora, na hora da distribuição dos quartos, argumentando que os responsáveis pelo sanatório não aceitariam colocar&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;um casal numa só habitação sem uma certidão de casamento. Tentei argumentar que Mariano já o tinha avisado da situação, que Zau e eu vivíamos maritalmente há dois anos, mas ele me respondeu que Mariano tinha ficado em Moscou. Irritado, resolvi fincar pé e lhe prometi que não iria sair dali, do pátio em frente à portaria onde tínhamos nos acomodado com a bagagem, se não nos fosse atribuído um quarto de casal. O homenzinho continuou a sua tarefa, distribuindo as chaves aos alunos da Lumumba, a hora do almoço ia se aproximando e nós continuávamos ali. Zau ainda tentou me convencer a aceitar a situação, pois daquele jeito ainda ficaríamos sem quarto. “Que nos enviem de volta para Moscou”, disse-lhe, decidido a levar a parada até o fim. Depois de umas duas horas de espera, com o sol bem alto e a temperatura nos fazendo lembrar que estávamos no verão, quando restavam poucos estudantes para acomodar, o professor veio até cá fora e disse que a minha teimosia tinha surtido efeito. “Parabens pela sua determinação”, me disse ao entregar a chave de um quarto de casal. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;A casa de descanso ficava a alguns quilómetros de Tuapsé, no alto de uma colina perto do mar, numa zona típica de pequenas enseadas e montanhas que caracterizam a região. Havia um grande refeitório central, que partilhávamos com os russos em férias em sessões de almoço ou jantar de meia hora cada, rigorosamente cronometradas. Espalhadas por recantos nos montes, cercadas de árvores frutíferas, estavam as habitações. Ladeada por ciprestes, uma longa escada dava acesso ao mar e, lá em baixo, finalmente, a praia. Para quem estava acostumado ao mar da Bahia, era uma verdadeira decepção. Naquela zona do Mar Negro, as praias não são de areia mas sim de pedras. Sem chinelos, não era possível andar pela praia e, muito menos, entrar na água. O pior foi quando, no terceiro ou quarto dia, as medusas tomaram conta do mar e não saíram mais de lá. Houve que não se incomodasse e continuasse com os mergulhos, mas eu não consegui entrar mais na água, pois tinha a sensação nada agradável de estar dentro de uma enorme panela de sopa de legumes. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;O Mar Negro nem sempre foi um mar, pois, há 22 mil anos atrás, era apenas um lago de água doce. Há cerca de 7 a 9 mil anos, com o degelo das calotas polares*, o nível da água do Mediterrâneo subiu e atravessou o estreito de Bósforo, na Turquia, transformando o lago em mar, porém com um grau de salinidade menor que nos demais oceanos. Segundo os estudiosos, este acontecimento, transmitido de geração em geração, através dos séculos, estaria na gênese do mito de Noé e a sua arca. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Para os estudantes da Lumumba, estavam reservadas muitas atrações e passeios durante aquela temporada de verão. Em lanchas de passageiros super poderosas, que funcionavam com motores de avião, segundo nos disseram, fomos levados a conhecer muitos lugares daquela zona costeira do Mar Negro. Um dos passeios mais longos que fizenmos nos levou até a cidade de Novarossíski, onde tivemos oportunidade de conhecer um incrível memorial de guerra, relativo a uma grande batalha que se dera naquele lugar durante a 2ª Guerra Mundial. Em formato de “V” ao contrário, subindo por um lado e descendo pelo outro, pudemos apreciar um museu com artefatos bélicos, destroços do sangrento confronto, e placares com a cronologia dos acontecimentos. Os detalhes da batalha, aquelas peças todas, tendo como música ambiente um hino marcial, chegavam a causar um arrepio na espinha, ao imaginar aqueles trágicos acontecimentos. No topo da lista dos heróis, gravada em letras metálicas no concreto do monumento, estava o nome de Leonid Brejnev. Segundo soube depois, o então secretário-geral do PCUS terá hiperbolizado a sua participação na batalha de Novarossiski, o que não terá sido difícil para ele, um adepto e seguidor do sistema de culto à personalidade. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;No regresso ao barco, me deu vontade de urinar, o que me fez conhecer o mais impressionante banheiro público de índole comunista que conheci até hoje. No caminho da praia, havia um pavilhão enorme, com uns 50 metros de comprimento, sem quaisquer vasos sanitários ou mictórios. De cada lado do banheiro, havia um imenso buraco que percorria toda a extensão da construção. Quem quisesse fazer as suas necessidades tinha, como companhia, centenas de pessoas que entravam e saíam. Sem se importar com nada disso, os russos baixavam as calças e acocoravam-se à borda do cagatório, uns ao lado dos outros. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-8307719820932385028?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/8307719820932385028/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=8307719820932385028' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/8307719820932385028'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/8307719820932385028'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/viagem-ao-mar-negro.html' title='Viagem ao Mar Negro'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-1416885431470202244</id><published>2011-01-14T14:50:00.001-08:00</published><updated>2011-01-14T14:50:42.943-08:00</updated><title type='text'>Como é linda a Primavera</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Como é linda a Primavera&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Apesar dos incômodos causados pelo degelo inicial, com os passeios cheios de lama quando as temperaturas voltam a subir, a Primavera é um dos momentos mais bonitos que a natureza proporciona nos países de clima frio. Os brotos que despontam nos galhos das árvores crescem em grande velocidade, os pássaros regressam aos bosques, os dias são cada vez maiores e o sol nasce cada dia mais cedo. Quase que se pode notar o crescimento das folhas, dos arbustos, com o verde a tomar conta de tudo. Ao fim de três a quatro semanas, não se consegue imaginar que até há bem pouco tempo estava tudo coberto de neve. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Quando as temperaturas passam a ser positivas, temos uma sensação de leveza no corpo, ao nos libertamos dos casacos, gorros, cachecóis e ceroulas. As cores que o sol trás consigo, depois de quase seis meses de inverno, substituindo o cinza da paisagem, dão nova energia às pessoas, que passam a estar mais bem humoradas. Com pouca vontade de se estar trancado num quarto, mas com os exames à porta, a solução é procurar alguma relva ao sol, no bosque perto da universidade, para estudar. Por esta altura do ano, eu e Marcos recebemos ordem de transferência para o nosso quarto definitivo, no pavilhão sete. Zau iria morar no pavilhão nove, um edifício mais moderno, com doze andares e elevadores, reservado às mulheres e a alguns poucos casais. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Ao final do primeiro ano de faculdade preparatória, o único exame que se fazia era de língua russa. Nas outras matérias, havia apenas um teste sem qualquer nota. Zau, Marcos e eu, que éramos alunos aplicados, tiramos a nota máxima e nos preparamos para as primeiras férias na União Soviética. Ao final da preparatória, todo estudante estrangeiro na ex-URSS ganhava dois meses de férias em casas de descanso do estado. Todos os anos, os alunos da Lumumba rumavam, invariavelmente, no mês de julho, para o Mar Negro, e, em agosto, descansavam às margens do rio Dnepr, na antiga república soviética da Moldávia. Antes de partirmos, Mariano, que não iria nos acompanhar nestas férias, disse-me que estava tudo tratado, que não me preocupasse, que eu e Zau teríamos um quarto só para nós dois no Mar Negro. Grande Mariano. E que, na Moldávia, não seria possível fazer o mesmo arranjo porque só havia grandes dormitórios, para moças e rapazes, em separado, e, portanto, teríamos que nos desenrascar em qualquer lado, brincou. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-1416885431470202244?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/1416885431470202244/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=1416885431470202244' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/1416885431470202244'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/1416885431470202244'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/como-e-linda-primavera.html' title='Como é linda a Primavera'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-347785685556645551</id><published>2011-01-14T14:48:00.000-08:00</published><updated>2011-01-14T14:49:16.458-08:00</updated><title type='text'>Ida à sauna</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Ida à sauna&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;A sauna é uma velha tradição russa e todos os balneários de Moscou são muito antigos, a maioria anteriores à revolução de 1917. Aquilo a que os russos chamam de &lt;i style=""&gt;bania &lt;/i&gt;é uma espécie de banho turco, com salas de banho construídas em madeira e o calor emanando de pedras em brasa, que vão sendo constantemente molhadas para aumentar a temperatura. Havia quem jogasse cerveja ou essência de ervas, tanto fazia, porque o objetivo de se jogar água sobre a fervura era controlar a humidade. Para os russos, ir ao &lt;i style=""&gt;bania &lt;/i&gt;é um momento de convívio sem distinção de classes, em que não faltam o vodka, o peixe defumado e os jornais desportivos para servir de mote à conversação. Com feixes de bétulas, batem uns nas costas dos outros para tirar as impurezas do corpo, às vezes em círculo, me fazendo lembrar os cangurus, que, por terem os braços curtos, fazem fila para coçarem as costas. Regra geral, os &lt;i style=""&gt;banias &lt;/i&gt;são uma coisa de homem na Rússia, com poucas saunas femininas. Havia umas poucas em Moscou em que alguns casais podiam alugar uma pequena camarata, o que permitia que algumas mulheres fossem à sauna mas em grupos, acompanhadas dos maridos. No centro de Moscou, haviam umas &lt;i style=""&gt;banias &lt;/i&gt;muito antigas, que eram utilizadas pela aristocracia antes da revolução, e que agora estavam à disposição de todos. Uma que frequentei anos mais tarde era muito bonita, toda em mármore, com grandes colunas gregas a rodear a imensa piscina fria, obrigatória antes de entrar na sala dos vapores. A elite soviética, porém, não frequentava estes lugares, apesar de serem vistos muitos generais em lugares destes. Quem tinha possibilidade de ter uma casa de campo, uma &lt;i style=""&gt;datcha&lt;/i&gt;, fazia uma sauna em casa, longe dos olhares alheios. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Estava meio engripado quando, num dia de inverno, fui ao bania pela primeira vez, sozinho, pois não havia encontrado companhia. O que nem foi preciso, pois, na fila de espera da sauna, Valôdia, um moscovita, meteu conversa comigo, dizendo que eu deveria ser da América Latina, por causa do meu cabelo comprido. Logo, formou-se um círculo e, enquanto esperávamos, fui submetido a um pequeno interrogatório pelos russos, que estavam curiosos de conhecer um estrangeiro e queriam saber coisas do outro lado da cortina de ferro. Ao entrarmos, nos deram uma toalha quase em farrapos, mil vezes usada e lavada, e nos dirigimos a balneários de duas pessoas, para deixar as roupas, cabendo-me Valôdia como parceiro, que estava gostando do papel de cicerone. Os russos são um povo muito simpático e afetuoso, com uns modos um tanto rudes, porém, sinceros. No &lt;i style=""&gt;bania&lt;/i&gt;, e também fora dele, os russos e os povos nórdicos em geral desfrutam de uma intimidade corporal que pode surpreender os mais desavisados. Para meu espanto, Valôdia me ensaboou as costas e depois passou-me o sabonete para que eu fizesse o mesmo com ele. Esta maneira de ser dos russos era algo que eu já notara com os meus colegas de corredor da residência da Lumumba. Às vezes, se reuniam no meu quarto e ficavam lá, aos montes, sentados na cama, conversando, uns sobre os outros. Quando o grandalhão do Sasha adoecia - e não foram poucas as vezes que ele ficou de cama, gripado e com febre - era tratado como uma criança pelos seus compatriotas, que lhe faziam chá bem quente, controlavam a medicação e a temperatura. Uma vez, entrei no quarto e estava lá um colega russo, sentado na cama e segurando a mão de Sasha, consolando-o pelo sofrimento da constipação, num vivo exemplo da solidariedade russa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-347785685556645551?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/347785685556645551/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=347785685556645551' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/347785685556645551'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/347785685556645551'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/ida-sauna.html' title='Ida à sauna'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-7592220980489402198</id><published>2011-01-14T14:47:00.001-08:00</published><updated>2011-01-14T14:47:49.521-08:00</updated><title type='text'>Olga, uma heróina brasileira</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Olga, uma heróina brasileira&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Nisto dos amores trágicos, a vida de Olga Benário Prestes, uma ex-militante da juventude comunista alemã, é das mais incríveis histórias que há notícia. Judia, alta e bonita, Olga foi uma revolucionária de verdade, tanto na teoria como na prática. Aos 17 anos, libertou o seu namorado, um professor que estava sendo julgado por subversão, apontando uma pistola à cabeça do juiz em pleno tribunal. Exilada em Moscou, foi encarregue pelo Komintern de Stálin de garantir a segurança do então famoso Luís Carlos Prestes, um herói internacional da esquerda, na sua trajetória rumo à conquista do poder no Brasil através de uma revolução armada. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Prestes e Olga assumem a identidade de Antônio e Maria Vilar e passam dois anos carimbando os passaportes falsos nos hotéis mais caros do mundo, viajando em cruzeiros, como se fosse um casal de milionários em lua-de-mel e assim despistar a polícia de temido Filinto Muller* ao entrar no Brasil. Na bagagem, levavam cem mil dólares, o famoso “ouro de Moscou”, para levar a cabo o seu intento. Ao mesmo tempo, vários casais de intelectuais europeus, revolucionários em seus países, partem em direção ao Brasil, todos clandestinos, para montar no Brasil um gabinete revolucionário. Haviam convencido Stálin de que o gigante sul-americano reunia condições semelhantes à da Rússia czarista e que só bastava acender o estopim para uma revolução de cariz semelhante. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;A vida imita a arte quando Prestes e Olga se apaixonam de verdade no cumprimento da sua missão. No navio que os levou de Paris a Nova Iorque, a cama pequena do camarote propicia o envolvimento de dois heróis do movimento revolucionário mundial que nutrem uma grande afinidade mútua de idéias e ideais. O que ninguém sabia é que aquele capitão do exército brasileiro, aos 37 anos de idade, eternizado como o Cavaleiro da Esperança pelo romancista Jorge Amado, mundialmente famoso pela sua Coluna Prestes, chegava virgem ao leito conjugal. A revelação seria feita no sensacional livro do jornalista Fernando Moraes*, &lt;i style=""&gt;Olga&lt;/i&gt;, que João Prestes, o primogênito do segundo casamento, me deu para ler em Moscou, dizendo que era muito bom e que o que estava lá escrito era realmente tudo verdade. Ao ler ao livro, tive a impressão de que a verdade que o João Prestes falara talvez tivesse a ver com a sentença de morte proferida por um “tribunal vermelho”, de que seu pai fizera parte, a uma militante do partido que acabou por ser enforcada com a corda do varal. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;O livro de Fernando Moraes é um verdadeiro épico, em que a grandeza dos personagens tem como cenário o maior conflito armado do século XX, com uma aura de romantismo que nem o célebre filme Casablanca conseguiu sequer chegar perto. O jornalista, que viria a se superar ainda com o “Chatô, o Rei do Brasil”*, narra em Olga a história de uma heroína moderna e pré-feminista ao mesmo tempo que faz um retrato fiel da força e organização do partido comunista alemão no início da década de 30 do século passado, da estrutura da Internacional Socialista da era stalinista e da malograda tentativa de se implantar uma república comunista no Brasil. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;i style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Olga &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;é um livro emocionante e a protagonista, uma mulher incrível. Quando a polícia invadiu a casa em que Luís Carlos Prestes estava escondido, após o fracasso da chamada Intentona Comunista, em 1935, com ordens de matá-lo, foi Olga quem gritou com os policiais, saindo-lhes ao caminho, dizendo que não se atirava num homem desarmado. Aquela mulher alta, bem mais alta que o próprio marido, com a sua voz forte e corajosa, intimidou os invasores e impediu talvez ali a morte do lendário capitão. Olga mostrou valentia, não desgrudando do marido e teve que ir sentada no colo dele durante o trajeto até a delegacia. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Na prisão, Olga descobre que está grávida e que Getúlio Vargas* quer entregá-la às autoridades nazistas. Com sete meses de gravidez, embarca rumo a um campo de concentração na Alemanha de Hitler, onde daria à luz a uma menina exatamente um ano depois da revolução fracassada, na madrugada de 27 de novembro de 1936. Anita Leocádia Prestes, a primeira filha do capitão, foi resgatada pela avó paterna ainda antes do fim da guerra. Em fevereiro de 1942, pouco antes de completar 34 anos, Olga Benário Prestes morre numa câmara de gás em Bernburg, uma cidadezinha situada a 100 quilômetros a sudoeste de Berlin. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;A primeira mulher de Luís Carlos Prestes é uma heroína genuinamente brasileira, que se queira quer não. Anos após a sua morte, Prestes recebeu a carta que Olga escrevera na véspera da sua morte, endereçada à filha e ao marido: “Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim”.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-7592220980489402198?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/7592220980489402198/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=7592220980489402198' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/7592220980489402198'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/7592220980489402198'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/olga-uma-heroina-brasileira.html' title='Olga, uma heróina brasileira'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-18892931238067124</id><published>2011-01-14T14:45:00.000-08:00</published><updated>2011-01-14T14:46:25.376-08:00</updated><title type='text'>A Coluna Prestes</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;A Coluna Prestes&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Luís Carlos Prestes começou a escrever o seu nome na história do Brasil em 1925 ao liderar um movimento armado que visava derrubar o poder das oligarquias que governavam o país, durante a chamada “Primeira República” ou “República Velha”. Apesar da república, a organização política naquele início de século XX remontava ao período anterior, em que os grandes latifundiários decidiam o futuro do país segundo os seus interesses de classe, num sistema baseado nos chamados “currais eleitorais”, com as lideranças políticas a controlarem o sentido do voto de milhões de trabalhadores rurais. Nas cidades, uma recente pequena e média burguesia começava a crescer. Militares, comerciantes, funcionários públicos e trabalhadores eram uma classe minoritária, mais bem informada e politizada, que, excluídos das decisões do poder, começaram a mostrar o seu descontentamento. Surge o movimento operário no Brasil, como todas as suas matizes, e, no seio dos militares, destaca-se o movimento da classe média das tropas do exército nacional, formado na sua maioria por oficiais de baixa patente, com a adesão e simpatia de sargentos, cabos e soldados, que seria conhecido como o “tenentismo”. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;Na sua “grande marcha”, entre 1925 a 1927, Luís Carlos Prestes liderou 1500 homens e percorreu 13 estados do Brasil, enfrentando tropas regulares do exército brasileiro, sem sofrer nenhuma derrota no campo militar, granjeando respeito e fama de grande estrategista, com grande capacidade de liderança. A sua coluna era formada por contingentes gaúchos e paulistas que haviam participado em revoltas no ano anterior contra o governo de Arthur Bernardes*, e mantinham focos de resistência. Ao convencer os líderes da rebelião paulista que era possível derrubar o governo, Prestes inicia uma marcha, em abril de 1925, que começa no Paraguai, entra no Brasil pelo atual estado do Mato Grosso do Sul e percorre praticamente todos os estados da região nordeste, regressa a Minas Gerais, refaz parte do trajeto da ida e caminha em direção à Bolívia, onde chega em fevereiro de 1927. No combate a este foco de rebelião permanente, participaram muitos batalhões de jagunços, a soldo dos “coronéis” do nordeste brasileiro, e, suspeita-se, hoje, que até o cangaceiro Lampião* terá sido arregimentado para lutar contra a Coluna Prestes. Depois de mais de 25 mil quilômetros de marcha, Luis Carlos Prestes, líder de um invicto exército de cansados e famintos, decide exilar-se e entregar armas ao governo boliviano. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;No seu percurso pelo interior do Brasil, a Coluna Prestes poucas vezes defrontou grandes efetivos do exército. As vitórias militares de Prestes basearam-se mais numa tática de guerrilha e despiste, com avanços e recuos, que ficou conhecida como “guerra de movimento”. Em suas investidas, a coluna liderada por Prestes tomava pequenas cidades do interior e organizava comícios em que se convocava a população a derrubar o governo de Washington Luís, que mantinha o país sob o estado de sítio desde que havia tomado posse, em novembro de 1926. Luís Carlos Prestes e o paulista Miguel Costa, os principais líderes da coluna, não conseguem depor o presidente mas granjeiam grande prestígio pela sua marcha vitoriosa. O movimento abre caminho para a única revolução da história brasileira, a Revolução de 30, e projeta a liderança de Luís Carlos Prestes, cuja fama galga as fronteiras nacionais. Emigrando com a mãe e as quatro irmãs em 1931 para Moscou, Prestes adere posteriormente ao Partido Comunista Brasileiro e lidera uma falhada tentativa de implantação de um regime comunista no Brasil em 1935. Até à sua morte, em 1991, aos 93 anos de idade, Luís Carlos Prestes seria sempre uma grande figura da vida pública brasileira.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;* a chamada Revolução Tenentista foi deflagrada em 5 de julho de 1924, em São Paulo, liderada pelo general Isidoro Dias Lopes e o apoio do capitão Joaquim Távora e do major Miguel Costa, que viria a ser o outro grande nome da Coluna Prestes. Os objetivos do movimento eram reduzir o poder dos oligarcas, democratizando o processo político, com a adoção do voto secreto, e a modernização das forças armadas. A revolta foi sol de pouca dura e os resistentes marcharam ao Mato Grosso, comandados por Miguel Costa. No Rio Grande do Sul, os gaúchos tardaram em aderir ao movimento, concentrados que estavam na sua vida política local, divididos entre “chimangos”, oposicionistas liderados por Assis Brasil, e “maragatos”, partidários do oligarca Borges de Medeiros. Somente&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;após o levante do 1º batalhão de Santo Ângelo, em 28 de outubro de 1924, idealizado por Prestes e o tenente Mário Portela, é que os revoltosos gaúchos e paulistas iriam se encontrar para dar início à Coluna Prestes. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-18892931238067124?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/18892931238067124/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=18892931238067124' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/18892931238067124'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/18892931238067124'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/coluna-prestes.html' title='A Coluna Prestes'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-1226956613631766056</id><published>2011-01-14T14:44:00.001-08:00</published><updated>2011-01-14T14:44:40.082-08:00</updated><title type='text'>O Cavaleiro da Esperança</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;O Cavaleiro da Esperança&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Marcos e eu entramos em rota de colisão com alguns elementos do coletivo brasileiro desde o princípio da nossa estada na União Soviética, nomeadamente com os elementos ligados ao PCB, e chegamos a ter conhecimento que a nossa conduta tinha sido discutida em algumas instâncias do partido no Brasil. Ao contrário da imensa maioria dos estudantes brasileiros, tínhamos um passado de engajamento na luta contra a ditadura militar brasileira, que ainda vigorava naquela época, pelo que era-nos difícil acreditar nas maravilhas do estado soviético que eram apregoadas pelos estudantes ligados ao PCB e que de certa forma controlavam a associação estudantil. Marcos era filiado ao PCB na Bahia e eu militara no movimento estudantil na década de 70, chegando a colaborar com a Tendência Socialista de MDB, do deputado gaúcho Américo Copetti. As nossas diferenças com esta ala do coletivo brasileiro&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;acentuaram-se nas assembleias que se realizavam periodicamente e que retratavam um pouco o cisma dentro do próprio partido comunista, que teve lugar quando Luís Carlos Prestes foi destituído do cargo de secretário-geral do PCB, em 1980, sendo substituído por Giocondo Dias. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Os membros do PCB em Moscou provavelmente receberam a missão de tentar catequizar os prepos brasileiros para o seu lado da barricada, pois condenavam abertamente o que consideravam uma traição de Luís Carlos Prestes. Mas como este ainda era um nome imaculado entre os soviéticos, tinham que amargar a presença e a influência que os filhos do mítico capitão tinham no coletivo brasileiro. Estes, por sua vez, apesar de educados na URSS, não abdicavam do convívio com os compatriotas, sendo que as filhas mulheres de Prestes eram todas casadas com estudantes brasileiros. Ao contrário do que os estudantes ligados ao PCB nos quiseram fazer crer nos contatos iniciais, os filhos de Prestes eram muito simpáticos e pessoas muito mais interessantes que a maioria dos brasileiros da Lumumba. Posso dizer que, com o passar dos anos, foram dos amigos brasileiros mais fiéis que Zau e eu tivemos, pois Marcos resolveu voltar para terminar o curso interrompido de jornalismo na universidade de Salvador, na Bahia. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Os secretários dos partidos comunistas estrangeiros eram considerados futuros chefes-de-estado na União Soviética e, enquanto permanecessem em território soviético, tinham regalias condizentes com o seu estatuto. Exilado em Moscou pela segunda vez em 1970, com a segunda mulher e os sete filhos pequenos, Luís Carlos Prestes possuía um apartamento numa das principais avenidas da capital, a avenida Gorki, situado a menos de 500 metros do Kremlin, com uma vista privilegiada para a Praça Vermelha. O apartamento era descomunalmente grande para os padrões soviéticos (e também para os brasileiros) e estava localizado num edifício habitado por figurões do regime, como militares de alta patente e políticos do 2º escalão. Igor, um russo casado com uma brasileira, não deixou de exprimir um oh! de espanto ao entrar no apartamento de Prestes pela primeira vez. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Nas suas deslocações a Moscou, Luís Carlos Prestes gostava de reunir os estudantes brasileiros no seu apartamento. Foi com alguma expectativa que comparecemos ao convite, Zau, Marcos e eu, de visitar Luís Carlos Prestes pela primeira vez, afinal, não é todos os dias que se encontra um vulto histórico do Brasil, que todos nós conhecíamos das narrativas dos livros de escola. Fomos recebidos por Mariana, a filha caçula do lendário capitão, que nos levou até a biblioteca, onde estava o seu pai, sentado à janela, com um livro entre mãos. Prestes levantou-se e veio nos cumprimentar. Nesse momento, me lembrei do que minha mãe dizia, quando eu era pequeno, que Prestes tinha sido um homem muito bonito, o que terá talvez contribuído para criar uma aura romântica de revolucionário ao seu redor. Ao contrário da imagem que eu criara no meu inconsciente, Prestes era um homem de baixa estatura, arqueado pelo peso da idade, porém com um ar sereno e um olhar profundo de quem já viu e passou por muita coisa. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Na sala do apartamento, estava já um grupo de estudantes brasileiros, que também tinham sido convidados. Prestes ainda demorou-se um pouco mais na biblioteca, talvez dando uma última lida nos apontamentos que tinha feito para a ocasião. O que eu pensava que seria um encontro informal, onde Luís Carlos Prestes iria contar algumas histórias, responder a perguntas, era na realidade um meeting político. No vigor dos seus 86 anos, extremamente lúcido, Prestes leu um discurso de quase três horas, cumprindo uma tradição dos líderes de esquerda, que gostam de fazer grandes intervenções, e onde previa uma revolução iminente no Brasil, pois estavam se reunindo todas as condições históricas para tal. Apesar do lado meio quixotesco da história, Prestes era um revolucionário que ainda acreditava nos seus ideais. Podia se discordar das suas posições, mas nem um pouco questionar o seu valor enquanto homem íntegro, que acreditou sempre na construção de um mundo mais justo. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-1226956613631766056?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/1226956613631766056/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=1226956613631766056' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/1226956613631766056'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/1226956613631766056'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/o-cavaleiro-da-esperanca.html' title='O Cavaleiro da Esperança'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-6056587378464953432</id><published>2011-01-14T14:38:00.000-08:00</published><updated>2011-01-14T14:39:24.561-08:00</updated><title type='text'>Neve, suor e cerveja</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;O carnaval que o coletivo brasileiro realizava todos os anos na Lumumba, geralmente no mês de março, era a festa mais badalada da universidade e, provavelmente, de toda a União Soviética. Para os russos, o carnaval brasileiro é sinônimo de sensualidade e lascívia, onde corpos humanos são mostrados como vieram ao mundo, algo impensável no audio-visual soviético daqueles tempos, em que a pornografia era proibida. A violência no carnaval do Brasil também não era esquecida. Todos os anos, invariavelmente, a televisão soviética anunciava o número de mortos durante os quatro dias de festa, o que sempre era motivo de conversa entre os russos. Como a política cultural soviética e, por consequência, a da universidade Patrice Lumumba, era a de respeito e cultivo das tradições dos diferentes povos, o carnaval que os estudantes brasileiros organizavam era permitido dentro desta ótica, mas limitado ao espaço do clube universitário, com um sistema de convites que fazia daquela festa uma espécie de concorridíssima celebração tropical no gélido inverno moscovita. Cada estudante do coletivo brasileiro tinha direito a cerca de 15 convites e o restante era distribuído a várias entidades oficiais, entre estas a embaixada brasileira. O carnaval da Lumumba era o que acabava por nos ligar aos brasileiros do corpo diplomático e, de alguma forma, oficializava a nossa presença na ex-URSS. Para o governo brasileiro da altura, nós éramos subversivos e colaboracionistas pró-soviéticos. Para os funcionários da embaixada e do consulado, este pormenor não fazia a menor diferença e o que eles queriam mesmo era se divertir. Eu imagino que a vida deles devia ser bem monótona, longe do Brasil, com poucos afazeres no serviço, bons rendimentos e raras opções de diversão. Por isso é que eles esperavam ansiosamente pelo carnaval e os convites que lhes eram oferecidos deviam ser algo de grande disputa interna. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;&lt;span style=""&gt;        &lt;/span&gt;O Interclub, o clube da universidade era engalanado a preceito, numa tarefa em que se envolviam os brasileiros e alguns amigos uruguaios, que não estudavam na universidade. Durante o ano letivo, os brasileiros eram constantemente assediados pelos estudantes de outros países, que sonhavam em poder ter acesso ao carnaval. No dia da festa, a polícia era chamada para fazer a segurança e eram colocados gradeamentos para controlar o acesso ao local. Parecia a entrega dos Óscares, com a multidão a aglomerar-se para ver a chegada dos convidados, devidamente caracterizados para o efeito. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-6056587378464953432?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/6056587378464953432/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=6056587378464953432' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/6056587378464953432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/6056587378464953432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/neve-suor-e-cerveja.html' title='Neve, suor e cerveja'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-1699133291609687267</id><published>2011-01-14T14:37:00.001-08:00</published><updated>2011-01-14T14:37:49.222-08:00</updated><title type='text'>Morre Andropov</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b style=""&gt;&lt;span style="font-size: 18pt; color: black;" lang="PT"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span style="font-size: 18pt; color: black;" lang="PT"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt; color: black;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 35.4pt; color: rgb(255, 255, 255);"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Numa manhã de fevereiro de 1984, a rádio começa a emitir somente música clássica e marchas fúnebres. O russo Sasha entra pelo quarto, com um ar entristecido, e comunica que Iuri Andropov havia morrido. “Era um bom camarada”, lamenta, na sua ingenuidade. A expectativa agora era, no entanto, saber quem o iria substituir. Estes momentos de passagem de poder no Kremlin eram envoltos em um véu de mistério parecido com a escolha do papa da igreja católica. Os dignatários da ex-União Soviética eram escolhidos por um colégio de eleitos e os seus cargos também eram vitalícios. Nos funerais de estado que era transmitidos em direto pela televisão, o novo secretário-geral do PCUS tinha a honra de segurar a primeira alça direita do caixão. A escolha do Politburo soviético recaiu&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;em Konstantin Tchernenko, um homem da velha guarda de Brejnev, que assumiu o cargo em condições precárias de saúde. Analistas e historiadores crêem hoje que já se desenhava a luta interna pelo poder, entre a velha guarda e os renovadores no Comitê Central do PCUS, e que a escolha de Tchernenko serviu para dar um tempo enquanto a refrega fosse decidida. Konstantin Tchernenko fez duas rápidas aparições públicas, sempre amparado por seguranças, e morreu menos de um ano depois de ter tomado posse. À boca pequena, comentava-se que Tchernenko deveria estar tão doente e debilitado que nem deveria estar se apercebendo do que estava a acontecer. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-1699133291609687267?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/1699133291609687267/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=1699133291609687267' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/1699133291609687267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/1699133291609687267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/morre-andropov_8577.html' title='Morre Andropov'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-3177009242027586908</id><published>2011-01-14T14:28:00.000-08:00</published><updated>2011-01-14T14:30:13.149-08:00</updated><title type='text'>Rebeldia com causa</title><content type='html'>&lt;!--[if gte mso 9]&gt;&lt;xml&gt;  &lt;w:worddocument&gt;   &lt;w:view&gt;Normal&lt;/w:View&gt;   &lt;w:zoom&gt;0&lt;/w:Zoom&gt;   &lt;w:hyphenationzone&gt;21&lt;/w:HyphenationZone&gt;   &lt;w:compatibility&gt;    &lt;w:breakwrappedtables/&gt;    &lt;w:snaptogridincell/&gt;    &lt;w:wraptextwithpunct/&gt;    &lt;w:useasianbreakrules/&gt;   &lt;/w:Compatibility&gt;   &lt;w:browserlevel&gt;MicrosoftInternetExplorer4&lt;/w:BrowserLevel&gt;  &lt;/w:WordDocument&gt; &lt;/xml&gt;&lt;![endif]--&gt;&lt;!--[if gte mso 10]&gt; &lt;style&gt;  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable  {mso-style-name:"Tabela normal";  mso-tstyle-rowband-size:0;  mso-tstyle-colband-size:0;  mso-style-noshow:yes;  mso-style-parent:"";  mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt;  mso-para-margin:0cm;  mso-para-margin-bottom:.0001pt;  mso-pagination:widow-orphan;  font-size:10.0pt;  font-family:"Times New Roman";} &lt;/style&gt; &lt;![endif]--&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Após as férias de inverno, Ivan, que pertencia à direção da associação dos estudantes brasileiros, me convidou a participar num festival de música que a universidade iria realizar. O festival era aberto a estudantes de toda a União Soviética e tinha um pormenor que me fez recusar a proposta. Era um festival da canção política. Ivan insistiu com a idéia e sugeriu que eu escolhesse as canções que ele tratava do resto. Afinal, eu cantaria em português e os soviéticos não iriam entender nada. Além do mais, havia muito tempo que a colônia brasileira não participava de um festival assim, pelo que o brasileiro ficou todo contente. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Quando cheguei em Moscou, eu tocava algumas canções no violão e pouco mais. Quando pequeno, cantei em programas de televisão, por iniciativa da minha mãe, mas lá em casa não havia espaço para a música por causa do meu pai, oficial da Brigada Militar do Rio Grande do Sul. Só pude comprar um instrumento depois que saí de casa e comecei a trabalhar na revisão do jornal Zero Hora, de Porto Alegre. Sabia tocar algumas músicas do cearense Ednardo (aquele do Pavão Misterioso) e outras que o amigo Nei Lisboa me ensinara. Numa primeira festa que se organizou na faculdade preparatória, fui literalmente convocado a participar, pois, já que trazia um violão comigo e sabia tocar, então não havia como fugir. Cantei duas músicas do Neizinho e fiquei popular entre os estudantes da preparatória. Sem que eu soubesse, o responsável pelo jornal da universidade estava presente na sala e destacou a minha apresentação na primeira página da edição seguinte. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Um panamenho que tocava bongô conhecia um pianista tcheco que estudava num instituto de línguas perto da universidade e formamos um grupo para o festival.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Seriam dois dias de eliminatórias e uma gala no sábado que iria contar com um representante do comitê central do PCUS. Esvaziamos uma garrafa de conhaque no banheiro e antes de entrar no palco eu coloquei uma boina preta na cabeça e uns óculos escuros. Com a barba e o cabelo comprido, parecia que o Che Guevara tinha ressuscitado e iria agora participar com o seu violão num festival para invisuais. Quando entramos no palco, a reação da plateia foi de estupefacção, pois certamente não estava à espera de tal ousadia. Havia ensaiado o nome da primeira canção em russo e disparei ao microfone: “pra viajar no cosmos não precisa gasolina”, o que provocou o delírio dos estudantes latinos, que começaram a gritar. Foi preciso esperar que se acalmassem para que pudéssemos começar a tocar. Entretanto, começo a notar algum nervosismo e troca de olhares entre os responsáveis da universidade que estavam na primeira fila e faziam parte do júri. Antes de eu começar a cantar a canção propriamente propriamente dita, o checo tocava uma introdução que era parte de uma composição que ele estava fazendo, e que era meio pesada e sorumbática. Aquilo durou uns minutos e eu percebia que a movimentação entre os soviéticos aumentava. Talvez sentissem aquilo tudo como uma provocação. Que porra de canção política era aquela? Quando terminamos, a casa veio abaixo. Os latinos entraram em histeria. Pulavam, gritavam, extravasando uma alegria contida, armazenada talvez há muitos anos. Faltava tocar a segunda canção, mas o povo não se calava. O apresentador pedia silêncio mas ninguém queria ouvir. Foi preciso esperar quase cinco minutos para recomeçar. O presidente do clube da universidade, responsável pela organização do festival e muito provavelmente um agente do KGB, gesticulava e dava a entender que gostaria de saber o que se passava ali. Quem teria deixado passar uma coisa daquelas? Quem era o responsável? Lá tocamos a segunda canção - a minha primeira composição, tipo blues - que terminava com um falsete. Nem terminamos de tocar e a multidão já se levantava de novo. Algo os havia despertado e aquele trio parecia ter sido o estopim para uma explosão de alegria há muito adormecida. Saímos rapidamente do palco, enquanto ouvíamos a plateia a gritar, a exigir a nossa presença. O apresentador de serviço estava quase a conseguir levar a sua missão ao destino quando regressamos ao auditório onde estava Zau e o nosso grupo de amigos. Quando o público nos viu entrar por uma porta lateral, a gritaria recomeçou. Continuamos a ser ovacionados ainda por alguns minutos, o povo levantou todo, os estudantes queriam nos cumprimentar, nos tocar, dizer que tinha sido verdadeiramente revolucionária a nossa prestação. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;Tanta receptividade do público presente no festival não encontrou eco no corpo de jurados. O festival tinha um formato que não premiava um vencedor específico, apenas selecionava os participantes para a gala final, que seria transmitida em direto pela televisão estatal. E é claro que os responsáveis políticos não estavam nem um pouco dispostos a deixar que aquele trio incendiário se apresentasse perante o país inteiro. O resultado não podia ser outro, fomos desclassificados. No meio do público, começaram a surgir algumas vozes de indignação. Alguns latinos mais exaltados gritavam, xingavam nomes aos soviéticos até que um músico russo, participante do festival, pediu a palavra para falar. Elemento de um grupo conhecido em toda a União Soviética, defendeu-nos e criticou a organização do festival. O meu russo ainda era meio claudicante, mas o brasileiro Ivan ia traduzindo tudo. O homenzinho foi realmente corajoso, pois eu próprio achava que não valia à pena tanta confusão. Mas o russo continuava. Chegou mesmo a ser grosseiro com a organização e até hoje me pergunto se ele continuou a fazer o que fazia até então e não terá sido deportado para a Sibéria. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt;" lang="PT"&gt;A música sempre foi sempre algo de especial para mim. Os festivais da TV Record marcaram a minha infância profundamente. Sempre gostei de cantar e, quando comecei a tocar os primeiros acordes no violão, eu só queria saber de interpretar algumas músicas para poder brilhar em festas e acampamentos e, é claro, conseguir umas meninas. Só que a participação no festival foi uma emoção muito forte e inesperada, que quase não me deixou dormir naquela noite. Resolvi que iria tentar mudar de curso e estudar música. Me disseram que era um processo muito difícil mas nada impossível. Havia casos de estudantes que conseguiram sair da Lumumba mas tinha que se ter o aval do partido comunista, no meu caso, o brasileiro. Fui com Humberto, presidente do coletivo brasileiro, falar com a responsável pelos estrangeiros, a temível Ala Mitrofânovna, secretária da reitoria da universidade. Surpreendentemente muito simpática, disse-me que eu cantava muito bem e informou-nos que era necessário apenas escrever uma “zaiavlênie” (uma declaração, em russo) e endereçá-la ao reitor. E, obviamente, que não faltasse o selo do PCB. Merda, pensei eu. A tal da “zaiavlênie” representava, na altura, a burocracia por excelência do estado soviético. Para tudo era preciso escrever uma: o papel iria circular de gabinete em gabinete até parar à secretária de algum burocrata e ali ficar, provavelmente alguns anos, à espera de uma resposta. Dei para mim o prazo de dois anos, para tentar aprender a língua e, se não conseguisse a transferência, o que era o mais provável, regressava à casa. Pois estava enganado. Passados um ano e alguns meses, a resposta foi positiva. O brasileiro Ivan, que era ainda o terceiro elemento da troika do PCB em Moscou, garantiu a aprovação partidária para o meu intento e foi quem me ajudou a encontrar uma escola de música quando eu abandonei a universidade.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;  &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 35.4pt; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: 18pt; color: black;" lang="PT"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-3177009242027586908?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/3177009242027586908/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=3177009242027586908' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/3177009242027586908'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/3177009242027586908'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2011/01/rebeldia-com-causa.html' title='Rebeldia com causa'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113445973767292312</id><published>2005-12-12T23:40:00.000-08:00</published><updated>2005-12-12T23:42:17.680-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/879/1832/1600/placerouge.jpg"&gt;&lt;img style="display:block; margin:0px auto 10px; text-align:center;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/879/1832/400/placerouge.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Moscou no inverno&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113445973767292312?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113445973767292312/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113445973767292312' title='3 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113445973767292312'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113445973767292312'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/12/moscou-no-inverno.html' title=''/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113211646069090362</id><published>2005-11-15T20:45:00.000-08:00</published><updated>2005-11-15T20:47:40.700-08:00</updated><title type='text'>Leningrado, cidade-mártir</title><content type='html'>Leningrado, que se chamava São Petersburgo, que se chamou Petrogrado e que voltou a se chamar São Petersburgo, é uma das cidades mais lindas do mundo. No século passado, por várias vezes teve a sua designação alterada, sempre por motivações políticas. Fundada pelo czar Pedro I* em 27 de Maio de 1703, recebeu o nome de São Petersburgo, em homenagem ao padroeiro da cidade. Com a revolução de 1917, passou a se designar Petrogrado e, em 1924, com a morte de Lênin, Leningrado. Em 1991, um referendo devolveu-lhe o seu nome original.  &lt;br /&gt; Ao construir a sua capital no delta do Rio Neva, no âmbito da guerra que expulsou os suecos do território russo (1700-1721), Pedro I pretendeu garantir a segurança das terras reconquistadas e, ao mesmo tempo, “abrir uma janela para a Europa”, estreitando relações comerciais e culturais com os países ocidentais. Para a sua edificação, foram convidados os mais renomados arquitetos, engenheiros, pintores e escultores da Europa, que construíram uma cidade única, com grandes avenidas, luxuosos palácios e soberbas catedrais. Erguida sobre 40 ilhas, possui mais de 400 pontes e ganhou o epíteto de “Veneza do Norte”. Centenas de milhares de soldados, camponeses e prisioneiros de guerra encarregaram-se das difíceis obras, que tiveram lugar em meio a pântanos e condições climatéricas adversas. O czar trabalhava lado a lado com os seus súditos, ganhando a alcunha de “Pedro, o Grande”, por estes e muitos outros feitos, sendo que a Fortaleza de Pedro e Paulo, primeira construção da nova cidade, numa pequena ilha, foi construída a partir de desenhos do próprio monarca. O símbolo da determinação de Pedro I é o “Cavaleiro de Bronze”, que Catarina II mandou erigir na Praça do Senado, em 1782, magnífico monumento que representa o czar montado em seu corcel com o braço apontando o caminho a ocidente. &lt;br /&gt; São Petersburgo passou a ser o gande centro político e cultural da Rússia e, após a morte do seu fundador (1725), todos os governantes que se seguiram trataram de dotar a capital do império de edifícios e monumentos esplendorosos. No reinado de Catarina, a Grande (1762-1796), a cidade tornou-se um dos maiores centros de cultura da Europa, sendo que foi, por esta altura, que viveu o acadêmico Mikhail Lomonôssov, o primeiro naturalista russo de renome mundial. Foi também durante este período, denominado “idade das luzes”,  que em São Petersburgo foi criada a primeira escola nacional de dança, que deu início à tradição russa no balê. Na corte russa do século XVIII, a língua que se falava era o francês e, nos locais públicos, vedava-se o acesso a quem não utilizasse roupa “ocidental”. &lt;br /&gt;Em 1764, a czarina fundou no Palácio de Inverno o museu Hermitage, que começou como uma coleção privada de obras de arte e hoje é o maior museu do mundo, com 3 milhões de peças em exposição, distribuídos por mais 400 salas em cinco palacetes, apenas um terço do espólio da casa, que guarda outros seis milhões de peças na despensa. Como despojos da segunda guerra, o Hermitage tem uma coleção de obras-primas que compreendem 24 pinturas de Rembrandt, uma Nossa Senhora com o pequeno Jesus de Leonardo da Vinci e quadros de Rafael, Rubens, Ticiano, Van Dyck, Veronese, Velasquez, impressionistas, pintores do século XX. &lt;br /&gt;O maior poeta da Rússia, Aleksandr Pushkin (1799-1837), retrata em “Evgueni Oneguin”, o primeiro romance russo em verso, a vida de São Petersburgo no início do século XIX. Na antiga capital, nasceram ainda o renomado escritor Vladimir Nabokov, autor de Lolita, e o poeta Iossif Brodski, laureado com o prêmio Nobel. Mais recentemente, nos anos 80, o líder do então clandestino grupo musical Aquarium, Bóris Grebenshikov, era mitificado pelos fans soviéticos, tendo sido todo rabiscado o prédio em que vivia, por dentro e por fora, escada acima, num culto semelhante ao dedicado ao apartamento de Boris Pasternak*, em Moscou. &lt;br /&gt;Entre os grandes compositores eruditos que viveram São Petersburgo nos séculos XIX e XX, estão Piotr Tchaikovski, Igor Stravinski, Serguei Prokofiev, Dmitri Chostakovitch, entre outros. A orquestra sinfônica de Leningrado não perdeu a galhardia nem quando a cidade foi bombardeada na segunda guerra mundial, apresentando-se regularmente, mesmo que desfalcada pelas bombas alemãs. Durante a guerra, Chostakovitch compôs uma sinfonia - XXXX -, que foi interpretada pela orquestra com a regência do próprio compositor, num intervalo entre os bombardeamentos. &lt;br /&gt; O metrô de São Petersburgo é uma verdadeira obra-prima da engenharia, tendo sido construído  por debaixo do leito das centenas de canais de cruzam a cidade, o que dá uma sensação de se estar viajando ao centro da terra. As escadas-rolantes adentram mais de 50 metros de profundidade e, lá embaixo, por medida de precaução em caso de algum vazamento de água, pesadas portas de ferro separam a linha de trem da plataforma de passageiros, com estas a abrirem-se somente à chegada da carruagem. A exemplo do metrô de Moscou, o de São Petersburgo é extremamente luxuoso, com estações inteiras construídas com mármores de todas as cores e muitas estátuas de bronze. &lt;br /&gt; Até a revolução de 1917, São Petersburgo foi sempre a cidade mais importante do reino, deixando de ser a capital quando os comunistas transferiram o centro do poder para dentro das muralhas do Kremlin, em Moscou. Em fevereiro daquele ano, a cidade, que os russos sempre chamaram carinhosamente de “Peter”, presenciou a queda do czarismo, com a revolução burguesa, e, passados apenas oito meses, viu o cruzador Aurora dar o sinal para os bolcheviques tomarem o Palácio de Inverno. Nos anos negros de Stálin, na década de 30, a propósito do assassinato de Kirov*, dezenas de milhares de habitantes de São Petersburgo foram deportados para o arquipélago de Gulag ou para a imensidão da Sibéria*. &lt;br /&gt; Quem for um dia a São Petersburgo, não deve deixar de visitar a Catedral de Santo Isaac que, com mais de cem metros de altura, pode ser vista de qualquer lado da cidade. Com paredes de mármore, foi o único edifício que foi poupado pelas bombas de Hitler, que ali queria instalar o seu quartel-general durante a 2ª guerra mas teve a sua pretensão frustrada. Durante 900 dias, a cidade resistiu ao cerco das tropas da Alemanha nazista, num dos capítulos mais heróicos do conflito. Mais de cem mil bombas foram despejadas sobre a cidade, que perdeu mais de um milhão de seus habitantes mas não se deixou conquistar. Visita obrigatória é também a estação de trens Finlândia*, onde Lênin desembarcou para fazer a revolução, proveniente da Helsinque.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113211646069090362?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113211646069090362/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113211646069090362' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113211646069090362'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113211646069090362'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/leningrado-cidade-mrtir.html' title='Leningrado, cidade-mártir'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113194962080607089</id><published>2005-11-13T22:24:00.000-08:00</published><updated>2005-11-13T22:27:00.816-08:00</updated><title type='text'>Uma viagem no gelo</title><content type='html'>Zau e eu partimos rumo a Leningrado para duas semanas de férias de inverno, juntamente com a turba toda da Lumumba, num trem que partiu à meia-noite em ponto, nenhum segundo a mais ou a menos, num bom exemplo de como tudo funcionava com rigorosa pontualidade na ex-União Soviética. Como dizia o escritor colombiano Gabriel Garcia Marquez, em seu livo “Viagem pelos países socialistas”*, os trens soviéticos eram realmente os mais confortáveis da Europa, com leito em todas as classes, em contraste com os trens europeus ocidentais. Nas duas primeiras classes, viajava-se em compartimentos espaçosos de duas ou quatro camas. Os professores se instalaram na 1ª classe e, nós, estudantes, viajamos em segunda. A terceira classe não possuía camarotes, mas as pessoas iam deitadas na mesma, num emaranhado de beliches, com o vagão assemelhando-se a um daqueles “paus-de-araras” do nordeste brasileiro, bem mais confortável, é claro, mas com os passageiros obrigados a um convívio sem qualquer privacidade, as famílias todas juntas, a criançada na maior algazzarra. Às seis da manhã, desembarcamos na Maskovski Vagzal (estação de Moscou), e dirigimo-nos em ônibus para uma casa de descanso numa povoação vinte quilômetros a norte de Leningrado, na costa do golfo da Finlândia, no mar Báltico, que naquela altura do ano estava congelado. &lt;br /&gt; Numa das tardes em que Zau e eu decidimos explorar as redondezas da casa de descanso, um edifício antigo, muito bonito, um daqueles que fazem parte da extensa rede soviética de unidades desta natureza, construídas, ao longo de décadas, para que cada trabalhador soviético pudesse gozar, pelo menos uma vez na vida, uns dias de repouso merecido, fomos conhecer a aldeia de Zelenogorski e bisbilhotar as lojas do estado. Estava um tempo bom, pouco vento e cerca de dez graus negativos, o que, nestas circunstâncias, podia-se passear algumas horas ao ar livre sem que se chegasse a congelar. Tomamos duas krushkas de cerveja cada um num pequeno supermercado e, já com os sentidos bastante alterados, resolvemos passear à beira-mar. Dava  um frio na espinha ver aquele marzão todo congelado, uma infinita pista de patins no gelo, com o horizonte a se perder de vista. Houvera sido por ali, numa daquelas praias, que Vladimir Lênin, numa certa ocasião, entrou clandestinamente na Rússia, atravessando o mar a pé sobre o gelo desde a Finlândia, acompanhado por um guia perito nestas travessias. Não resistimos também a experimentar a mesma sensação e literalmente caminhamos sobre as águas, adentrando talvez uns dez metros da costa pelo que era possível deduzir com toda aquela neve e gelo à mistura. Entorpecidos pelos efeitos do álcool, gozávamos aquela briza gélida em nossos rostos, aquela paisagem glaciar, quando de repente Zau sentiu uma necessidade urgente de urinar, efeito previsível após a ingestão de tanto líquido. Sem outra alternativa, até porque estávamos sós naquela imensidão, baixou as calças e colocou a bundinha ao léu para satisfazer as suas necessidades. Vendo-a ali, acocorada, aproveitei para brincar, dizendo-lhe: “Cuidado, não vá provocar um degelo, pois ainda caímos na água”. &lt;br /&gt; No regresso a Moscou, enfrentamos a nossa primeira onda de frio, ainda que apenas uma pequena amostra, com os termômetros a registrar vinte graus negativos. É com essa temperatura que o frio começa a infligir algum suplício ao corpo humano, o contato com ar queimando a pele. Perde-se a sensibilidade na ponta do nariz e as orelhas ficam tão geladas que dá a impressão que iriam se partir como um cristal de gelo se alguém desse um estalo com o dedo. Na Rússia, até uma certa temperatura, a vida transcorre normalmente, as pessoas vão ao trabalho e os estudantes às escolas e universidades, ninguém deixa de fazer nada por causa do frio. Quando a temperatura desce aos vinte graus negativos, os alunos da primária ficam em casa. Com o meu filho, eu controlava a temperatura com o auxílio de um termômetro do lado de fora da janela, pois, apesar do inverno, aconselha-se que as crianças pequenas passeiem todos os dias, para reforçar a imunidade contra os vírus da estação. Até os dezesseis graus negativos, se não estivesse a ventar, eu podia levá-lo a passear por umas duas horas, sem problema, que era o recomendado pelas autoridades sanitárias. &lt;br /&gt;Nos anos que vivi em Moscou, houve alguns invernos mais rigorosos em que a temperatura desceu aos 30-35 graus negativos e por aí manteve-se, umas duas semanas, o que era realmente muito frio. Nestas ocasiões, era grande o risco de congelamento das canalizações de gás da rede de aquecimento central, o que podia provocar rupturas no abastecimento de energia. O reveillon de 1979 foi um dos mais frios do século na Rússia, quando a temperatura desceu aos 42 graus negativos. Nessa ocasião, dezenas de quarteirões em Moscou ficaram sem energia durante umas duas semanas. Eu conheci uma família que me disse que, naqueles dias, tiveram que dormir todos juntos na mesma cama, cheios de cobertas e vestidos com as pesadas roupas de inverno, botas e chapkas incluídas. Por causa do frio, sem poder preparar nada para comer, com qualquer xícara de chá quente congelando em poucos minutos, a família teve que se alimentar de produtos enlatados até que a avaria fosse consertada. Tomar banho, então, foi coisa que ninguém cogitou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113194962080607089?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113194962080607089/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113194962080607089' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113194962080607089'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113194962080607089'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/uma-viagem-no-gelo.html' title='Uma viagem no gelo'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113130852093003541</id><published>2005-11-06T12:20:00.000-08:00</published><updated>2005-11-06T12:22:00.946-08:00</updated><title type='text'>O planeta vermelho</title><content type='html'>Uma coisa que todo soviético nunca deixou de perguntar, quando conhecia um estrangeiro, era se realmente a União Soviética era o país mais avançado do mundo e se os seus cidadãos tinham mesmo um nível de vida superior aos do ocidente, como o regime apregoava. E foi esta uma questão sempre difícil, pois o país dos sovietes era uma experiência ao mesmo tempo extraordinária e aterrorizante. Ao custo de milhões de mortos vítimas da coletivização forçada imposta nos anos 30, os burocratas do partido único haviam construído um país gigantesco, segunda potência mundial desde o final da segunda grande guerra até finais dos anos 80, quando caiu o muro de Berlim, e o único exército no planeta com arsenal bélico capaz de rivalizar com os Estados Unidos. Isto sem falar que os russos competiram de igual para igual com os americanos na corrida ao espaço, enviando os primeiros seres vivos à órbita da Terra, a cadela Laika e o astronauta Iuri Gagarin, tendo introduzido novas palavras no cotidiano do cidadão ocidental, como Sputnik (o satélite que em russo significa “companheiro de caminho”, neste caso, companheiro de caminho do nosso planeta) e Soyus (as naves soviéticas, traduzidas à letra, a palavra “união”). &lt;br /&gt;Mas apesar de tudo, da grande crise que sobreveio à dissolução da URSS, os soviéticos não viviam mal naquele início da década de 80. Moscou é o que se poderia chamar “o paraíso da classe média”. Havia extensas filas e carência de gêneros de primeira necessidade porque o poder aquisitivo da população era elevado. A grande verdade é que os soviéticos não tinham onde gastar o seu dinheiro. Havia famílias do interior que trabalhavam durante anos para juntar milhares de rublos e fazer compras numa viagem à capital. Em geral, estes viajantes queriam comprar o que não encontrariam no lugar onde viviam, nos confins do império. Aparelhagens de som, televisores e roupas de origem estrangeira eram os artigos mais procurados. A custa dos subsídios generosos, que viriam a se revelar fatais para a economia estatizada da ex-URSS, a produção nacional era baratíssima. Montar uma casa não custava muito. Móveis e eletrodomésticos, desde que fossem fabricados no país, custavam preços irrisórios para o bolso de um cidadão médio soviético. O ensino era todo subsidiado. Enquanto estudante de medicina, Zau pôde comprar todos aqueles álbuns de anatomia para o seu curso a preços módicos, em edições mais modestas que as suas congêneres ocidentais, mas de igual valia para o estudante. Muito acessíveis também eram as famosas máquinas fotográficas Zenith, assim como o material para a prática caseira da fotografia. O único senão é que não havia controle de qualidade na indústria soviética e para comprar uma simples lente era necessário procurar uma que não tivesse uma bolha muito grande no vidro. &lt;br /&gt;Os salários dos trabalhadores soviéticos eram bastante elevados. Um motorista de ônibus recebia 300 rublos por mês enquanto um trabalhador das minas de carvão chegava aos 600 rublos. Por paradoxal que seja, médicos e professores universitários recebiam cerca de 150 rublos por mês, o mesmo que uma calça jeans alcançava no mercado paralelo. Cá em baixo, estávamos nós, os estudantes da preparatória, que recebiam 80 rublos de bolsa. No primeiro ano da universidade, o estipêndio subiria para 90 rublos. Esta tabela salarial soviética foi construída a partir de um dos postulados marxistas, o de que a mais valia de uma sociedade é produzida pela classe operária. O sistema soviético atribuía um salário conforme a participação de cada classe social na produção da riqueza do país. Os mineiros desciam ao interior da terra para, com o seu trabalho, sustentar a indústria siderúrgica, base da economia socialista, logo recebiam mais pelo seu trabalho. Esta era a lógica que determinava os pisos salariais e que causou sempre grande insatisfação nos meios acadêmicos. No contato com os estrangeiros, os médicos eram os que mais manifestavam a sua mágoa contra o sistema, que lhes fazia ter bem menos poder aquisitivo que um trabalhador qualificado. Hoje em dia, a situação não mudou muito. Engenheiros, cientistas, médicos e professores vivem no limiar da pobreza. A classe alta da nova sociedade surgida com a derrocada do comunismo, um capitalismo selvagem com uma estrutura baseada na máfia siciliana, são os políticos, militares, seguranças privados e homens de negócios quase sempre escuros. &lt;br /&gt;O salário do secretário-geral do PCUS rondava os 800-900 rublos mensais, calculavam alguns amigos moscovitas, razoavelmente bem informados. Por seu turno, um marechal do exército ou um cientista de área estratégica poderiam receber até dois mil rublos por mês, o que não significava que os seus rendimentos fossem maiores que os da classe que governava o país. Havia uma elite soviética habituada a regalias de consumo a que a grande maioria da população não tinha acesso. Para satisfazer estes ímpetos capitalistas da classe dirigente, havia as chamadas lojas especiais, cujo acesso somente era possível com a devida credencial. No centro da capital soviética, a 200 metros do Kremlin, uma fila dupla de carros Volga, negros e brilhantes, denunciava a proximidade de um estabelecimento destes. Da entrada de um prédio, saíam famílias com pacotes que colocavam nos porta-bagagens das viaturas estacionadas, à espera de levá-las para casa. O mais curioso é que junto à entrada do então secreto edifício, havia (e provavelmente ainda há) uma placa com as inscrições “Na sacada deste prédio, em 19 de abril de 1919, Vladimir Ilitch ‘Lênin’ falou aos comandantes do Exército Vermelho antes da partida para a frente de combate da Guerra Civil”. Misha, um judeu moscovita e um dos primeiros amigos fora da Lamumba, foi quem me mostrou a casa pela primeira vez e explicou que aquela loja era destinada aos membros do comitê-central do PCUS e suas famílias. &lt;br /&gt;Toda uma cadeia de lojas semelhantes abastecia a elite soviética naqueles tempos. Caviar, salmão fumado, frutas tropicais, roupas de marca ocidentais, vodka para exportação, frutas e hortaliças frescas todo o ano eram artigos que não existiam nas prateleiras do cidadão comum e que faziam a diferença no orçamento das famílias, para além de outros privilégios. No entanto, as regalias eram distribuídas consoante a posição no aparelho de poder soviético. Os membros do poderoso comitê central do PCUS - cerca de duas mil pessoas - ministros e altos quadros do Soviet Supermo, o parlamento, recebiam mensalmente uma ração do Kremlin, que dava para alimentar com extravagância os seus familiares. Marechais e almirantes soviéticos, cientistas famosos, heróis do socialismo altamente condecorados, astronautas, escritores galardoados com o Prêmio Lênin, diretores de jornais importantes como o Pravda (verdade, em russo), o Izvestia (notícia), cantores famosos e estrelas do balê faziam parte da elite soviética e tinham também as suas lojas especiais, assim como os funcionários médios do partido, oficiais do ministério da defesa, e a polícia secreta também tinham as suas lojas, mas com menos artigos de luxo e importados, porém mais caros que nas lojas dos seus superiores. Os velhos bolcheviques que pertenciam ao partido desde os anos 30 também recebiam uma cesta básica especial, que eram escalonadas segundo a importância de cada um. Por toda Moscou, havia uma infinidade de estabelecimentos variados, desde lavanderias a salões de beleza, que serviam a uma clientela selecionada. &lt;br /&gt;Tolik, um guitarrista russo que estudou comigo anos mais tarde, me contou que, antes de ter ingressado na escola de música, trabalhou num destes estabelecimentos secretos, só que mais dedicado aos prazeres mundanos. O meu amigo contou-me que foi a época em que mais ganhou dinheiro na vida e que durante dois anos recebeu cerca de 3 mil rublos mensais tocando numa casa de meninas para membros do partido e operacionais do KGB. A casa noturna funcionava num restaurante nas cercanias de Moscou e tinha uma placa que dizia “estabelecimento fechado” eternamente dependurada à entrada. Alguns clientes chegavam a pagar 100 rublos por cada música tocada pelo grupo em que meu amigo participava. Tolik trabalhou neste lugar até que a casa foi descoberta e fechada durante  a razia que Iuri Andropov empreendeu no início dos anos 80, numa tentativa algo desesperada de fazer o sistema funcionar com o apoio das forças policiais. O antigo chefe do KGB do Leonid Brejnev mandara a sua polícia secreta proceder a blitzes em filas de lojas pela cidade de Moscou para detetar quem estava trabalhando ou não, já que muita gente se furtava ao trabalho, que era obrigatório. Provavelmente, terá se cansado das estrepolias do seu antecessor, cujo mandato ficou conhecido como a “era da estagnação”, um período em que a economia não saía do lugar e proliferavam os privilégios e mordomias da casta que comandava o império. &lt;br /&gt;Os analistas ocidentais bem tentaram calcular a exata dimensão da elite soviética. Num país com uma população de 280 milhões de habitantes, houve que apontasse a cifra de um milhão de pessoas fazendo parte da elite, o que, incluindo os familiares, daria vários milhões. Em comparação aos países ocidentais, a distribuição de renda na antiga União Soviética era de longe mais bem equilibrada. O fosso entre pobres e ricos nos Estados Unidos da América era muito maior que o fosso entre a classe trabalhadora na URSS e suas elites. É verdade que havia descontentamento entre os soviéticos, sobretudo entre aqueles que haviam cursado o ensino superior, médicos, engenheiros, professores universitários, em suma, pessoas que se enquadrariam na chamada intelligentsia. Mas é também verdade que os soviéticos aceitavam que os dirigentes do país vivessem melhor que a maioria, afinal esta era uma tradição que vinha da Rússia Imperial.  De qualquer forma, apesar de uma minoria viver melhor que a imensa maioria da população, naquele tempo, a vida em Moscou era extremamente barata. Os aluguéis dos apartamentos rondavam os seis, sete rublos por mês, incluindo água, luz e aquecimento das moradias, o que não era pesado no orçamento das famílias, onde era impensável que um dos cônjuges não trabalhasse. As mulheres faziam os mesmos trabalhos que os homens, como conduzir transportes pesados ou trabalhar na construção civil, e tinham o mesmo poder aquisitivo e status social. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os transportes eram então a verdadeira maravilha da antiga União Soviética. O preço do bilhete do transporte urbano não custava mais que cinco kopeks. As viagens de trem ou avião também eram baratíssimas. Para nós, estrangeiros, que tínhamos acesso a divisas estrangeiras, os preços das viagens internacionais saíam por uma ninharia. Na primeira vez que voltei ao Brasil, três anos mais tarde, o bilhete de ida e volta a Buenos Aires custou pouco mais de 2 mil rublos, cerca de 300 dólares no câmbio negro. Para viajar de trem, ida e volta até Berlim, pagava-se 90 rublos, pouco mais de dez dólares. &lt;br /&gt;Antes da perestroika, as únicas lojas, supermercados e restaurantes que havia eram de propriedade do estado. Paralelamente ao grande e único negócio do poder soviético, que comandava todas as áreas da economia, existia entretanto uma outra economia informal, que abastecia o desejo mortal dos cidadãos soviéticos em adquirir  objetos de consumo fabricados nos países ocidentais. Isto porque a qualidade da indústria soviética deixava muito a desejar. É paradoxal que a União Soviética fosse o país que mais produzisse calçado no planeta e que esse encalhasse nas prateleiras das lojas estatais. O estado permitia a revenda de artigos usados n os chamados “komissioni magazini”, onde se entregava o que se queria vender e o produto era então colocado na vitrina. Este locais eram muito movimentados e as suas redondezas eram mercados clandestinos, onde se vendiam sobretudo artigos importados. A polícia tentava exercer alguma vigilância, mas era difícil controlar a multidão. Os grandes casacos usados no inverno russo ocultavam as transações. Era um mercado de usados e os soviéticos não se importavam de comprar em segunda mão, inclusive vestuário. Muitas vezes, chegavam a oferecer um bom punhado de rublos pelos tênis ou o casaco que eu levava vestido. Os moscovitas abordavam com naturalidade os estrangeiros nas ruas, oferecendo-se para comprar qualquer coisa, um lenço que fosse, propondo muitas vezes conseguir em troca artigos soviéticos difíceis de encontrar, como caviar ou vodka para exportação. &lt;br /&gt;O dilema maior da economia soviética eram os chamados planos quinquenais, onde eram estabelecidas metas nas várias áreas de atividade por um período de cinco anos. A indústria tratava de cumprir o plano estabelecido, atingindo as quotas previstas de produção, e ignorava as reais necessidades de consumo da população. Este desequilíbrio entre a oferta estatal de bens e serviços e a procura de parte do consumidor soviético levava a situações caricatas. Em 1984, ano em que Zau e eu casamos na embaixada brasileira em Moscou, havia excesso na oferta de frigoríficos mas não se podia comprar papel higiénico, um produto que naquela época era chamado de “deficitário”. No seu lugar, utilizávamos guardanapos de papel, até que, alguns anos mais tarde, já havia papel higiênico nas lojas do estado, em grandes quantidades, sem que se recorressem às filas para saciar a demanda, enquanto que, para adquirir um frigorífico, era preciso esperar meses. Para perceber como a produção planificada da economia, centralizada nas mãos do estado, abastecia de modo irregular o mercado soviético, imaginemos um diretor de fábrica de bolachas que tem que cumprir as metas impostas, por um período de cinco anos, para não correr o risco de vir a ser apeado do posto que ocupa. Em virtude dos resultados serem calculados em rublos, ou seja, o ministério estabelecia um limite orçamental para a produção, o plano era considerado cumprido quando se tinha gasto o dinheiro previsto. Numa situação destas, as fábricas de bolacha produziam muito mais bolachas doces, que aumentavam o seu custo por causa do açúcar, e as bolachas salgadas desapareciam das prateleiras em um ou dois anos. Até o próximo plano quinquenal, os soviéticos eram obrigados a comer somente bolachas doces. &lt;br /&gt;Os produtos sumiam das prateleiras e ninguém sabia prever quando e onde apareceriam novamente. No interior, entre os artigos deficitários contabilizava-se a carne e, em muitos lugares, só se podia comprar chouriço e mortadela, principalmente no inverno. Por isso, milhares de pessoas viajavam diariamente a Moscou para comprar carne, frutas e hortaliças frescas ou derivados do leite, como o requeijão, o “tvôrag”, que nos últimos anos do comunismo viria a desaparecer por completo. Naquela época, os moscovitas diziam que a população flutuante diária da sua capital chegava ao milhão. Moscou e Leningrado eram as duas principais cidades, com muitos estrangeiros, e tinham um abastecimento privilegiado de produtos provenientes dos países do Leste Europeu ou das repúblicas bálticas, de melhor qualidade, e que eram colocados sem aviso prévio nas lojas. Tênis tchecoslovacos ou chineses, vestidos com muito melhor corte da Polônia, mel ou batatas provenientes de Cuba, laranjas do Marrocos, bananas do Equador, ameixas secas da antiga Iugoslávia apareciam como que do nada. Para não serem apanhadas de surpresa, as donas-de-casa soviéticas andavam sempre com uma sacola de plástico. As novidades eram também vendidas na rua e, de repente, um caminhão estacionava, três ou quatro homens descarregavam alguns caixotes, uma mulher tomava conta da balança e do caixa improvisado, formando-se logo uma imensa fila de compradores. Os homens também participavam na jornada diária das compras e colocavam os artigos que compravam nas pastas 007 que geralmente traziam consigo. A princípio, podia-se pensar que os moscovitas eram todos funcionários de escritório, carregando para todo lado a sua pasta executiva cheia de papéis, numa imensa sociedade “orwelliana”*. Mas, na maior parte das vezes que vi alguém abrir uma pasta destas, no metrô ou nalguma praça, foi para sacar de lá uma garrafa de vodka e um sanduíche de mortadela. &lt;br /&gt;As filas eram uma instituição na antiga União Soviética. Se alguma se formava, era sinal de que o que estava à venda era algo que se podia comprar. E as pessoas entravam numa fila sem ao menos perguntar que produto era comercializado, o que talvez até nem valesse à pena, pois muitas vezes ninguém saberia até se aproximar do vendedor, o que poderia levar horas. Muitas vezes, as pessoas adquiriam algo que não precisavam realmente, mas havia que aproveitar a ocasião, comprar logo vários artigos não fosse algum parente ou conhecido necessitar. Para não desperdiçar as bagatelas, os russos andavam sempre com muito dinheiro no bolso. Muitos não se furtavam de vender à porta do magazine, com ágio, os produtos que mal havia comprado. As filas na União Soviética tinham um regulamento tácito, que à partida as pessoas respeitavam. Podia-se marcar um lugar na fila e voltar mais tarde. Porém, este regra funcionava se houvesse cumplicidade entre os integrantes de uma fila. Se o produto à venda fosse demasiado valioso, havia quem não gostasse desse sistema e reclamasse. Mas em se tratando de pepinos ou leite, não havia muita discussão. Nos grandes espetáculos de música ou de teatro, as filas formavam-se com dias de antecedência para comprar os poucos bilhetes que eram postos à venda. Nestes casos, elaborava-se uma lista por escrito das pessoas que iam chegando e uma pessoa ou mais se encarregava de pernoitar na bilheteria em representação das pessoas daquela lista. &lt;br /&gt;Nas primeiras visitas às lojas estatais soviéticas, a impressão era de que havia alguma fartura, porque havia muita coisa exposta nas prateleiras e vitrinas. Sensação esta que se desvanecia ao se criar uma rotina de vida na grande metrópole. Descobria-se que fazer as compras era um exercício diário e penoso de cerca de duas a três horas. Levar leite, pão, queijo e chá para casa não era uma tarefa rápida e significava entrar em várias filas para se conseguir o almejado. Numa loja normal de bairro, um “magazin”, como se diz em russo, havia sempre uma ou duas caixas trabalhando. Os queijos, a manteiga, o leite, o chouriço e as mortadelas, o açúcar e o chá, cada um destes produtos era vendido em um balcão diferente. Saíamos da caixa registradora com vários tickets na mão e muitas filas pela frente. Aqui é que o jeitinho de marcar um lugar na fila dava jeito, sobretudo se falássemos um bom russo. O queijo e a manteiga eram vendidos a granel e cada vendedora pesava antes de o entregar. Eram setores onde sempre se esperava um bom bocado. Às vezes tínhamos primeiro que pesar o queijo, dependendo do espírito da mulher que atendia, e depois irmos ao caixa tirar o ticket, o que me fazia tentar contabilizar qual dos dois métodos era menos cansativo, mas nunca cheguei a uma conclusão. Os russos contavam que havia grupos de adolescentes que, para troçar da situação, formavam filas na brincadeira, em locais públicos, e depois se afastavam, divertindo-se ao ver a multidão que entretanto se formara. &lt;br /&gt;Uma vez, Zau, eu e Kitty, uma amiga da República Dominicana, fomos a uma pizzaria perto da Biblioteca Lênin. No hall de entrada, um homem que parecia ser o gerente disse-nos que o tempo de atendimento médio era de 40 minutos. Para nós, que já estávamos habituados, pareceu-nos normal. Era inverno, nevava lá fora e queríamos nos aquecer e comer qualquer coisa. Enquanto deixávamos os casacos no bengaleiro, uma senhora russa entra e o gerente repete-lhe o que nos havia dito. A mulher diz que não pode esperar e regressa à rua. Entramos e estranhamos, pois a pizzaria estava praticamente vazia. Kitti até comentou, com aquele seu tom peculiar: “Coño!, que a esta gente nos les gusta trabajar!”. Pois passaram dez minutos e tínhamos as pizzas em cima da mesa. Ficamos espantados. O gerente espantava os clientes para não ter que trabalhar. O seu salário estava garantido no final do mês e, pelos vistos, não estava interessado no futuro do negócio. Provavelmente teria conseguido o seu cargo de diretor por indicação partidária e a vida não lhe corria mal. Na maior parte das vezes, tínhamos que aguardar do lado de fora de alguma pizzaria ou casa de chá para sermos atendidos, pois havia poucos estabelecimentos do gênero, como era de se esperar numa grande metrópole como Moscou. No inverno, foram muitas as ocasiões em que enfrentamos condições climatéricas bastante adversas para tomar um chá com bolachas. &lt;br /&gt;Nos restaurantes e pizzarias, não podíamos nos sentar onde quiséssemos. Quem distribuía os lugares era a garçonete, com o seu ar superior e face avermelhada. Não se podia ocupar uma segunda mesa enquanto houvesse um lugar vago na primeira. Ao cidadão comum, não restava outra coisa a não ser resignar-se com a falta de privacidade. Uma boa recepção dependia também do funcionário. Em geral, as pessoas que trabalhavam na área dos serviços eram mal humoradas, mas, quando se apercebiam de que éramos estrangeiros, chegavam a ser bastante amáveis. Com o cidadão comum, costumavam ser implacáveis, donos do pedaço, grosseiros inclusive. Frequentemente vi senhoras perguntarem numa loja à mulher sentada atrás do balcão o preço de alguma coisa e esta não responder bulhufas, nem um pio. Certa vez, enquanto eu olhava a vitrina de um balcão, uma dona-de-casa fartou-se de não ser ouvida e disse alto, com uma entonação que não esqueci: “A senhora fala russo?”, expressão que memorizei, com o mesmo sotaque moscovita da senhora, e utilizei inúmeras vezes nos anos seguintes. Os meus cabelos compridos certamente assustavam as mulheres, pois elas acordavam da sua letargia, não fosse eu filho de algum membro do comitê central do PCUS, autorizado a andar vestido à ocidental. &lt;br /&gt;Quando chegamos a Moscou, naquele ano de 1983, o maior bem que um consumidor soviético podia se dar ao luxo de adquirir era um gravador de cassetes duplo, com relógio e equalizador. No mercado-negro, o seu preço ascendia aos 2 mil rublos, uma pequena fortuna. Me recordo de ver numa vitrina na avenida Lênin, numa das primeiras explorações feita aos arredores da universidade, o primeiro leitor de vídeo-cassete da URSS, apresentado como um trunfo da indústria do país na sua luta ideológica contra o ocidente. O aparelho em exposição não estava, no entanto, à venda, e o simples cidadão só podia comprar um sob encomenda. Ter carro em Moscou era também um luxo para poucos. O modelo mais econômico não saía por menos de 15 mil rublos e era preciso esperar meses ou anos. Ser membro do PCUS ou ter algum amigo filiado no partido único da ex-União Soviética podia fazer com que esta espera fosse menor. &lt;br /&gt;As famosas lojas Berioskas eram as únicas lojas em que se vendiam artigos importados em divisas estrangeiras. Com acesso restrito a estrangeiros e soviéticos ligados ao corpo diplomático, este modelo seria encontrado em todos os países de modelo de gestão comunista, incluindo Cuba, Angola e Moçambique. Os estudantes estrangeiros aproveitavam para aumentar o seu magro orçamento comprando artigos e revendendo-as aos amigos soviéticos. Geralmente, as vendas eram feitas no círculo de amigos ou a algum colega de residência estudantil comprador de muamba, geralmente um soviético com contatos fora da residência. Os estudantes africanos que recebiam dólares das suas embaixadas tornavam-se verdadeiros homens de negócio com o passar dos anos. Nem todos porém recebiam ajuda externa e, pouco a pouco, a universidade dividia-se entre aqueles que tinham dinheiro e os que não tinham. Nestas lojas, também eram aceites os chamados “rublos certificados”, dado a cidadão soviéticos que haviam cumprido alguma missão de serviço no estrangeiro, como diplomatas, atletas ou bailarinos do Teatro Bolshoi. &lt;br /&gt;A instituição maior da economia paralela soviética, surgida pela incapacidade do estado em produzir bens de consumo duráveis, era a propina. Esta era uma situação absolutamente normal, que não causava constrangimento a nenhuma das parte envolvidas. O diretor de uma loja de produtos alimentares do estado vendia 90 por cento do estoque pela porta dos fundos, a quem pagasse mais, e colocava o resto na prateleira. Nos açougues, a carne em exposição era da pior qualidade, só guisado de segunda. O filet mignon era vendido a conhecidos, que não se importavam de pagar mais pelo produto. Nas conversas entre amigos, era comum que alguém se gabasse de ter um amigo diretor de loja do estado, que conseguia este ou aquele produto difícil de encontrar. Com exceção dos mais fanáticos, todo funcionário público recebia algum por fora para fazer o seu trabalho mais rapidamente. Um bom presente comprado numa loja para estrangeiros fazia com que qualquer processo não fosse parar ao alto da lista dos papéis.&lt;br /&gt;Apesar do monopólio estatal na produção e distribuição, os agricultores soviéticos podiam comercializar parte das suas colheitas em mercados onde os preços fugiam ao controle do estado. Estes mercados existiam um pouco por toda a parte e colmatavam as graves lacunas no fornecimento de bens perecíveis. Carne de boa qualidade, enchidos e conservas, grande variedade de frutas frescas e secas, legumes e verduras que jamais eram vistos nas lojas oficiais comprovavam que na ex-URSS afinal podia se comprar qualquer coisa, era tudo uma questão de poder aquisitivo. Os agricultores de outras repúblicas mais favorecidas pelos sol, como o sul da Ucrânia ou a Moldávia, voavam diariamente às capitais do império para colocar os seus produtos à venda nos mercados privados. &lt;br /&gt;O clima solarengo da então república soviética da Moldávia fazia daquela diminuta porção de terra, historicamente ligada ao território da atual Romênia, uma das repúblicas mais ricas da antiga União Soviética. Os seus habitantes tinham um nível de vida superior ao das demais repúblicas em virtude das boas e variadas colheitas que as suas terras proporcionavam. Nas primeiras férias de verão, em agosto de 1984, tive a oportunidade de contatar in loco esta realidade. Os moldavos dedicavam-se ao seu próprio cultivo e as plantações do estado estavam abandonadas. Os mercados tinham grande variedade de frutas e legumes, ovos e produtos lácteos, mas nem uma alface havia sido plantada em uma cooperativa do estado. Na capital da Moldávia, que naquele tempo se chamava Kishiniov, as frutas custavam barato mas em Moscou, a milhares de quilómetros de distância, meia dúzia de pêssegos não saíam por menos de 5 rublos, vinte vezes mais caros que numa loja do estado, mas de muito melhor qualidade. Os mercados eram o único lugar onde se podia comprar produtos de qualidade e sem filas, sendo que muitos moscovitas naquela época já podiam dar-se ao luxo de frequentá-los com alguma assiduidade. &lt;br /&gt; Com base na teoria do internacionalismo, formulada por Vladimir Lênin, os governos soviéticos que se sucederam ao longo dos anos procuraram fazer com que os cidadãos soviéticos das muitas nacionalidades da ex-URSS fizessem parte de uma cultura comunista homogênea, conservando ao mesmo tempo as suas identidades nacionais, as suas tradições e, principalmente, os seus idiomas. Como resultado desta política, o analfabetismo foi erradicado e foram criados os alfabetos e as gramáticas de quase centena e meia de diferentes nacionalidades e povos. A partir daí, os estudantes soviéticos sempre puderam optar entre cursar uma faculdade em russo ou na sua própria língua. As ciências naturais obtiveram resultados notáveis, destacando-se as áreas da física e da química. No entanto, com a política de fazer com que todos os aspectos da cultura refletissem o universo da luta de classes e fomentassem a revolução comunista, a literatura, as belas-artes e também a ciência sofreram com as restrições impostas pela idéia de que os valores políticos podem condicionar os conceitos artísticos ou científicos. &lt;br /&gt;Com Lênin ainda vivo, o modernismo russo viveu ainda uma era dourada, mas a invenção do “realismo socialista” como uma corrente estética viria a estabelecer limites para os artistas soviéticos. Na música, o jazz foi proibido por ser considerado “uma manifestação burguesa” - quando sempre foi uma música dos negros norte-americanos. O mesmo argumento serviu para que a cibernética fosse banida das universidades, o que fez com que a ex-URSS registrasse um grande atraso em relação aos países ocidentais quando se deu a “revolução informática” nos anos 90 do século passado. Como consequência, muitos cientistas ou escritores foram “banidos” e internados em hospitais psiquiátricos ou campos de trabalho forçado. Muitos se tornaram famosos do lado de cá da cortina de ferro, como o físico nuclear Andrei Sakharov ou os escritores Aleksandr Soljenisin e Boris Pasternack. &lt;br /&gt; No país dos sovietes*, apesar do regime vigente se auto-intitular de “ditadura do proletariado”, o que vigorou sempre foi a ditadura da burocracia. Um fenômeno, aliás, identificado pelo próprio pai da revolução, Vladimir Lênin, no seu testamento, o de que o aparelho de estado havia sido tomado pelos pequenos funcionários do partido, originando uma nova classe dominante, a nomenklatura. Aquando da subida dos bolcheviques* ao poder, Lênin logo percebeu que não conseguiria conduzir um país sem especialistas e tratou de pagar bons salários aos quadros que eram oriundos do antigo regime, para que estes não abandonassem a nova nação. A convivência entre a antiga classe média do czarismo e os comunistas não foi nada pacífica, como nos relata o célebre romance de Pasternack, Doutor Jivago*, eternizado pelas telas de cinema. A nova classe dirigente da Rússia tratou de moldar o sistema segundo os seus interesses de eternização no poder, surgindo uma nova intellingentsia, que adotou a burocracia como ciência e filosofia de estado. O procedimento burocrático impregnou a sociedade toda a partir daí e a teia de relações da nova elite. Iussef Stálin, um burocrata que não teve a menor participação nos grandes feitos das revolução de 1917, foi o precursor do culto à personalidade, que muitos revolucionários por este mundo afora iriam copiar quando ocuparam a cadeira do poder. &lt;br /&gt;Uma dos grandes feitos apontados pelos comunistas soviéticos era a figura do pleno emprego. De fato, uma pessoa podia demitir-se de uma fábrica e arranjar emprego no outro quarteirão. Não havia estabelecimento, comercial ou industrial, que não tivesse uma placa enferrujada a anunciar a admissão de trabalhadores. Só que, na economia estatizada soviética, onde tudo era de todos e nada era de ninguém, um imenso funcionalismo público, os níveis de produtividade eram baixíssimos. Um operário de uma fábrica metalúrgica que ganhasse 300 rublos por mês tinha o seu salário garantido fizesse ele 30 ou apenas 1 detalhe por dia de trabalho. O mais normal, entre um gole e outro de vodka, era fazer meio detalhe. Esta situação da economia soviética já tinha sido constatada por analistas ocidentais desde os anos 60, quando começou o chamado “período de estagnação da era Brejnev”, assim descrito pelos cientistas políticos da era Garbatchov. &lt;br /&gt;Na verdade, foi Nikita Krushev quem percebeu que a economia soviética não conseguia competir com a do ocidente, mas a sua inabilidade nos assuntos econômicos e a sua maneira atabalhoada de ser fizeram com que fosse apeado pela linha dura do partido, que não havia gostado que os crimes do ditador Stálin tivessem sido expostos ao mundo no XX congresso do PCUS em 1956. Leonid Brejnev e o seu círculo não conseguiram colocar a economia nos trilhos, mas fizeram o possível para manter as aparências a nível interno. No plano internacional, foi o que se viu. A URSS alinhou na corrida armamentista do presidente norte-americano Ronald Reagan e foi obrigada a jogar a toalha no tapete. &lt;br /&gt; Assim que, quando cheguei em Moscou em 1983, o gigante comunista não passava de um império semi-paralisado, vivendo das exportações de petróleo e do gás natural da Sibéria e com um parque industrial onde nove em cada dez empresas davam prejuízo. Alguns anos passariam ainda antes que um jovem (para os padrões soviéticos) secretário-geral do PCUS considerasse que era a hora de fazer alguma coisa. Michail Garbatchov andava ainda na universidade quando se deu a chamada “primavera krucheviana”, época em que o jazz deixou de ser proibido e os setores progressistas do PCUS tentaram dar um rosto mais humano ao comunismo. O último líder da URSS protagonizou a maior reviravolta cultural no país, a perestroika, criando um clima de liberdade de expressão inédito, ao mesmo tempo que quis implantar as bases para uma reforma gradual da economia e a sua conversão para a economia de mercado, mas com um cariz socialista. O que Garbatchov fez foi nada mais nada menos que aplicar a NEP - Nova Política Econômica, criada por Lênin, nos anos 20, quando este se apercebeu da quebra da produção na sequência da centralização da economia nas mãos do estado. A NEP consistia na liberação da atividade do pequeno comércio  e das profissões liberais, de modo a combater a escassez de gêneros de primeira necessidade e serviços primários que assolava a então jovem nação comunista.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113130852093003541?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113130852093003541/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113130852093003541' title='2 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113130852093003541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113130852093003541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/o-planeta-vermelho.html' title='O planeta vermelho'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113130842779079210</id><published>2005-11-06T12:17:00.000-08:00</published><updated>2005-11-06T12:20:27.800-08:00</updated><title type='text'>A neve</title><content type='html'>Um dia, quando regressava à casa, depois das aulas, notei que os pássaros estavam muito alvoroçados. Piavam muito, fazendo enorme alarido, o que me fez recordar o filme “Os Pássaros”, de Alfred Hitchcock, pois aquilo não parecia ser normal. De repente, como se tivessem combinado, levantaram vôo, aos milhares, enchendo o céu. Lá no alto, o barulho que faziam era ensurdecedor. Estariam tramando algum ataque? Perseguiriam as pessoas, a exemplo da ficção cinematográfica? Outros milhares de pássaros, de todas as direções, vieram juntar-se ao grupo. Mais parecia ser uma convenção com milhares de participantes quando, como se tivessem dado o toque de retirar, rumaram todos em direção ao sul, em busca de climas mais quentes. Cumpria-se o ritmo da natureza. Só ficaram os corvos, pássaros que conseguem sobreviver às mais baixas temperaturas. Era o sinal de que o inverno estava à porta. Foi por estes dias que levaram os estudantes da preparatória a comprar as roupas para o inverno no GUM, o principal centro comercial moscovita, situado na Praça Vermelha, em frente ao Kremlin. As roupas que nos deram eram quase todas de fabrico soviético. Um grande sobretudo para o inverno, botas para a neve, um terno de corte antiquado, um cachecol horroroso e a inevitável “chapka”, aquele gorro russo peludo, mundialmente conhecido. As roupas esportivas eram da Tchecoslováquia e, no geral, o vestuário oferecido pela Lumumba era bastante resistente, apesar do modesto design. Com a chegada da neve, os estudantes da Lumumba vestiram-se de igual para enfrentar as baixas temperaturas. O caminho até as aulas, todos os dias, mais parecia um cortejo de casacos  e gorros escuros, que contrastavam com o colorido sintético dos cachecóis. Os que haviam trazido alguma roupa de casa ainda conseguiam fugir à uniformização, mas os estudantes dos países mais pobres, principalmente de África, tinham que se contentar com as roupas que a universidade oferecera. No primeiro inverno, ninguém conseguiu fugir ao uso do sobretudo mas, com o passar dos anos, adquiria-se alguma resistência ao frio. &lt;br /&gt; Quando as temperaturas baixaram, tivemos que vedar a janela de vidros duplos do quarto com algodão e esparadrapo. Durante os cinco a seis meses em que a neve ir perdurar, tínhamos que nos contentar com a portinhola que havia no canto superior da janela, que acabava por ser o nosso frigorífico. Numa sacola, pendurávamos o que podia ficar congelado. Também se colocavam lá as cervejas, quando se queria que gelassem rapidamente. Às vezes, o frio era tanto que algumas garrafas estouravam, devido ao aumento do volume da cerveja, que se congelava. Os andares da parte de baixo do prédio eram muito frios pois, como estudamos em física, o ar quente sobe, e a temperatura aumentava a medida em que se subia o edifício. No segundo ano, eu e Zau recebemos um quarto da universidade para morar que ficava no quinto andar e, como tinha uma calefação grande, a temperatura no inverno era bastante agradável, podendo se andar em calções. Este primeiro quarto era tão quente que, mesmo no inverno, se estivessem apenas alguns graus negativos, tínhamos que deixar a janelinha aberta, pois senão sufocávamos de calor, o que até era irônico, pois lá fora não parava de nevar. &lt;br /&gt; A resistência dos russos ao frio é espantosa. Num dia de inverno, é quase impossível andar sem luvas, pois os dedos das mãos congelam. As orelhas são outro ponto sensível e faz-se mister cobri-las. No entanto, causava inveja ver os moscovitas à espera do ônibus, segurando sacolas ou pastas sem luvas, como se nada fosse. Eu tive amigos que, mesmo com uma temperatura negativa de 14 graus centígrados, usavam apenas uma camiseta sob o casaco. O frio é também elemento importante na medicina russa, utilizado como método de cura. Conhecidas no mundo inteiro são aquelas imagens dos russos banhando-se em buracos abertos no rio congelado. O que poucos sabem é que a maioria destas pessoas o faz por recomendação médica. Liova, um russo que foi meu colega na Lumumba e um dos meus melhores amigos durante os sete anos que vivi em Moscou, tinha graves problemas renais, que o obrigavam a constantes internamentos. Só conseguiu se curar quando se converteu num “morsh”, como são chamadas as pessoas que nadam em águas geladas. Tive uma professora que contou que o filho dela sofria de asma e que foi curado com “banhos de frio”. Ele o punha, quando pequenino, apenas em cuecas e abria a janela da habitação por uma, duas horas, todos os dias. &lt;br /&gt; A neve era uma novidade para nós e o frio não nos impedia de, nos finais-de-semana, sair para passear, ir a algum museu ou simplesmente passear nos bosques. Tínhamos que nos agasalhar bem, colocar luvas, cachecol e, principalmente, não esquecer de vestir ceroulas. Quando o meu filho nasceu, o trenó passou a ser uma componente obrigatória nas saídas. Até aí um objeto que eu só havia visto em filmes, o trenó passou a fazer parte do nosso cotidiano, assim como sempre o foi para os povos dos países frios. O trenó tanto pode ser um instrumento de lazer como ser utilizado para fazer compras. Com Dadi, o meu filho, eu saía todos os dias para passear e ir às lojas do estado comprar os produtos para o dia-a-dia, como leite, pão e queijo. No bosque perto da universidade, havia uns caminhos feitos especialmente para trenós, em declive acentuado, e dava um gozo muito grande deslizar por eles rapidamente, geralmente com a corrida acabar num monte de neve. O interessante é que a neve não molha. Basta sacudir as roupas e está-se novamente pronto para outra. No entanto, havia que tomar muito cuidado em determinadas alturas do ano, no início do inverno e na primavera, quando as temperaturas são negativas à noite mas, durante o dia, podem às vezes chegar até os 15 graus centígrados. A água descongelada vira gelo com o cair da temperatura e muitas vezes, ao sair de casa no dia de seguinte, tínhamos pela frente um verdadeiro ringue de patinação. A neve que eventualmente caísse cobria o caminho com uma fina película, disfarçando o perigo. No princípio, as quedas eram inevitáveis, mas com o tempo íamos aprendendo a nos equilibrar e, com um pouco de prática, pegava-se embalo e deslizávamos como se estivéssemos de patins. &lt;br /&gt; Eram umas cinco da tarde quando começou a nevar pela primeira vez desde que chegara a Moscou.  Nevou tanto que, no outro dia de manhã, ao sairmos para as aulas, a paisagem mudara completamente. Se não fosse o trabalho dos limpa-neves, provavelmente teríamos dificuldade em sair da residência. É incrível que, mesmo em meio a tempestades de neve, as máquinas que retiravam a neve das ruas não descansavam um minuto. Em cada prédio, havia uma pessoa responsável para limpar a neve dos passeios e abrir caminho até as casas. Este trabalhador estava sempre disponível para limpar a neve, porque às vezes nevava dias sem parar. O mesmo se passava com as máquinas, que estavam ligadas dia e noite, se acaso fosse necessário. No final do inverno, como a neve não derretia, formavam-se às vezes grandes paredões com a neve que ia sendo acumulada ao lado dos passeios. Na primavera, aquela neve toda virava um charco.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113130842779079210?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113130842779079210/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113130842779079210' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113130842779079210'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113130842779079210'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/neve.html' title='A neve'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113120566382210224</id><published>2005-11-05T07:38:00.000-08:00</published><updated>2005-11-05T07:47:43.843-08:00</updated><title type='text'>A festa da revolução</title><content type='html'>A Revolução de Outubro, afinal, comemorava-se a 7 de novembro. Isto porque, quando se deu a revolução em 1917, a Rússia ainda se guiava pelo calendário antigo, o juliano, instituído por Júlio César (100-44 a.C.), que tentou colocar alguma ordem na confusão sobre a contagem do tempo que vigorava na altura. O imperador romano foi quem instituiu o ano de doze meses, com a duração de 365 dias e seis horas, mas o cálculo feito pelos melhores astrônomos da época estava errado, pois o ano solar é de 365 dias, cinco horas, 48 minutos e 46 segundos. Em 1582, o papa Gregório XII corrige o calendário juliano, de modo a calcular corretamente a data da Páscoa, e empresta o nome ao novo calendário, o gregoriano. A maioria dos países adota o novo sistema mas a Rússia se mantém fiel ao antigo. Assim é que, quando se dá a revolução de 1917, os russos tinham um atraso de 13 dias em relação ao calendário ocidental. Até a queda do muro de Berlin, as comemorações eram assinaladas em 7 de novembro, data que correspondia ao 25 de outubro pelo anterior calendário. Por isso é que, pela historiografia soviética, era chamada de Revolução de Outubro.  &lt;br /&gt; No dia 7 de novembro, quando as temperaturas já se aproximavam do zero grau centígrado, Zau, Marcos e eu fomos ao centro de Moscou, juntamente com mais alguns brasileiros da Lumumba. O trânsito havia sido encerrado nas ruas adjacentes ao Kremlin, coração do estado soviético, e milhares de pessoas esperavam a hora dos fogos de artifício, uma tradição que remontava aos tempos imperiais. A festa oficial tinha sido à tarde, com  o Exército Vermelho e os mísseis a desfilar na Praça Vermelha, mas esta só podia ser vista pela televisão, pois os lugares na praça eram reservados a representantes dos sindicatos de trabalhadores de toda a União Soviética e demais instituições. Os chefes de estado convidados ocupavam lugar na tribuna de honra, que era o cimo do mausoléu de Lênin, ao lado dos dirigentes soviéticos. Para as massas, estava reservado o festival de fogos de artifício, que se repetia nos demais feriados ao longo do ano. Após o desmembramento da União Soviética, a data da revolução russa de 1917 deixou de ser assinalada oficialmente pelos países que então se formaram, a não ser alguns poucos saudosistas em idade avançada que teimam em sair à rua com bandeiras vermelhas. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        &lt;strong&gt;Os dias que abalaram o mundo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A revolução russa de 1917 foi um dos fatos mais importantes da história contemporânea e viria a marcar profundamente o século XX. Trabalhadores, intelectuais e artistas de todo o planeta saudaram a nova nação comunista nos seus primeiros anos de existência como um sopro de renovação num mundo velho que havia acabado de sair da 1ª Guerra Mundial*. Novos ideais de justiça social adquiriam grande projeção, entusiasmando as populações dos países ocidentais, que vislumbravam outros horizontes com o caminho aberto pelo primeiro governo de operários, camponeses e soldados do mundo. No olho do furacão, Vladimir Ilitch Ulianov, o Lênin, o homem que iria guiar os milhões de deserdados do império russo na tomada do poder. Para chegar lá, acreditou sempre em suas idéias e não desviou um milímetro do rumo traçado pacientemente nos anos de exílio, transformando em poucos meses o seu pequeno partido na vanguarda da revolução. &lt;br /&gt; Como todo mundo deve saber, uma revolução se dá quando uma classe social chega ao poder, usurpando a propriedade dos meios de produção e controlando a máquina do estado. Na história contemporânea, poucas foram as revoluções e muitos os golpes palacianos que, de revolucionários, só tiveram mesmo o nome. O golpe dos militares brasileiros em 1964 levou o nome de Revolução de Março sem o sê-lo. No Brasil, só houve uma revolução, a Revolução de 1930, quando foram derrubadas as oligarquias da República Velha. Na ocasião, os grandes latinfudiários perderam o controle do país para a crescente burguesia brasileira, num processo que se convencionou chamar de “revolução burguesa”. As revoluções também começam por golpes, mas a manutenção ou não das instituições vigentes é que vai definir se houve ou não uma revolução. No caso soviético, a Rússia passou por duas revoluções naquele ano de 1917. Em fevereiro, quando o czar abdica, empurrado pela revolta popular, e, passados poucos meses, em outubro, quando os bolcheviques chegam ao poder. &lt;br /&gt; Quando o czarismo é derrubado, a situação da Rússia era catastrófica. Com três anos de guerra, a fome e as epidemias alastravam-se pelo país. A desorganização era igual na frente de guerra, com deserções em massa e os soldados não podendo combater, vencidos pelo frio e pela falta de alimentos. Para conter o crescente descontentamento, a repressão aumentava por todo o país, com o czar sendo influenciado por Rasputin, o sinistro camponês que praticamente controlava as decisões do governo. O isolamento cada vez maior do czar Nicolau II, com as suas tropas a passarem para o lado do inimigo, leva a que uma aliança entre os camponeses ricos e democratas promovam a insurreição que derruba o trono dos Romanov em 27 de fevereiro (8 de março pelo atual calendário). Foi decretada a liberdade de imprensa e de associação partidária e abolida a pena de morte para os crimes políticos. Quando Nicolau II é deposto, os bolcheviques eram uma pequena seita política* que iria rapidamente ganhar a confiança do povo russo e mudar o rumo dos acontecimentos no decorrer de poucos meses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;strong&gt;Glossário da revolução russa&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Para entender a revolução russa, é primeiro necessário conhecer o significado das múltiplas organizações russas que compunham o espectro político do país em 1917. Quem bem descreveu o emaranhado de siglas, partidos e comitês operários foi o jornalista John Reed, em cujo relato me baseei para escrever as seguintes linhas. Convém salientar que, como escreve Reed, que presenciou os dias da revolução, a população russa, mau grado o atraso do país em relação à Europa Ocidental, era bastante politizada, participando ativamente nas organizações populares, consumindo com voracidade o que era publicado pelas dezenas de jornais diários existentes, representantes dos mais variados grupos políticos, que obtinham tiragens diárias de milhões de exemplares. Em todas as cidades, na maior parte das vilas e na frente de combate, toda e qualquer facção política tinha o seu jornal. Milhares de panfletos inundavam diariamente  as fábricas, as ruas e as tendas de campanha. Os russos estavam aprendendo a ler e devoravam publicações sobre história, política, economia, as obras dos grandes escritores russos. Reed conta em seu livro que, quando visitou o 12º exército, na frente perto de Riga, onde soldados descalços adoeciam na lama das trincheiras, a primeira que coisa que lhe perguntaram é se tinha trazido “alguma coisa para ler”. Este processo de conscientização política das populações na Rússia vinha crescendo desde 1905, quando Nicolau II mandou disparar contra uma manifestação pacífica de camponeses, originando a Revolução Russa de 1905, o que propiciou o surgimento de um novo tipo de organização independente, formada por representantes das classes trabalhadoras, na cidade e no campo, os “sovietes”. &lt;br /&gt; Durante séculos, desde Ivan IV, a pirâmide social na Rússia era composta por três classes: os boiardos, os kulaks e os mujiques. No topo, estava o czar, que dividia a administração do território com os boiardos, que eram os aristocratas russos. As terras dos boiardos eram cultivadas pelos mujiques, os camponeses, que, até o ano de 1861, trabalharam sob o regime de servidão. No campo, havia também uma pequena burguesia agrária, os kulaks, os camponeses ricos, donos de pequenas extensões de terra. Estes três grupos sociais mantiveram sempre um ódio ancestral recíproco, resultado de uma tensão social constante em virtude da miséria da imensa maioria da população. Nas cidades, um operariado crescente ganhava consciência política num capitalismo primário e selvagem, convivendo com outros setores da pequena burguesia urbana. &lt;br /&gt;Entre a infinidade de organizações que existiam, mencionarei as que tiveram um papel mais proeminente no curso dos acontecimentos de 1917:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1)  Cadetes: os constitucionalistas-revolucionários, (das iniciais K e D, em que John Reed translitera o nome em russo para uma transcrição fonética aproximada). No tempo do czar, era o partido da reforma política, constituído por liberais da burguesia industrial, equivalente ao Partido Progressista da América, formado por Theodore Roosevelt em 1912. &lt;br /&gt;2)  Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR): eram os socialistas-marxistas. Num congresso do partido, em 1903, dividiu-se em duas facções, a maioria (bolshinstvô) e a minoria (menshinstvô), originando os nomes “bolchevique” (membro da maioria) e “menchevique”, membro da minoria. Cada ala formou um partido, colocando ambas o mesmo nome de PSODR. Apesar da nomenclatura, desde a Revolução de 1905 os bolcheviques eram a minoria enquanto os mencheviques estavam em posição maioritária nos sovietes de operários e soldados. &lt;br /&gt;3)  Mencheviques: era composto por intelectuais que acreditavam na construção do socialismo pela via política. Consideravam que a Rússia não reunia as condições para uma revolução deste gênero pois necessitava antes percorrer outras etapas, construindo um capitalismo democrático. &lt;br /&gt;4)  Bolcheviques: inertes até a chegada de Lênin do exílio, mudam o nome para Partido Comunista e pregam a insurreição imediata, defendendo a entrega do poder aos sovietes e a extinção da propriedade privada e dos latifúndios. A sua doutrina foi de encontro aos anseios não só do proletariado urbano e dos soldados cansados de guerra, mas também de parte considerável dos camponeses pobres. &lt;br /&gt;5)  Partido Socialista Revolucionário: os eseristas (SR’s), das iniciais de seu nome em russo. Começou como uma organização armada camponesa, que defendia a abolição da propriedade privada na terra, mas, após a revolução de fevereiro de 1917, dividiu-se em eseristas de direita e de esquerda, com os primeiros a representar os camponeses ricos, os intelectuais e populações dos distritos rurais longínquos. Os eseristas de esquerda partilhavam a mesma cartilha bolchevique, defendendo a expropriação sem indenizações dos grandes latifúndios, e chegaram a ocupar cargos no governo soviético, nomeadamente, na pasta da agricultura. &lt;br /&gt;6)  Soviete: em russo, a palavra significa “conselho”, associada organizações populares de trabalhadores, soladados e camponeses desde a revolução de 1905. A maior parte dos sovietes de operários  e soldados aglutiram-se após a revolução de fevereiro de 1917, sendo que os soviete dos camponeses juntou-se aos outros dois após a tomada do poder pelos bolcheviques. O orgão que aglutinava os sovietes urbanos era o TsIK, o Comitê Executivo Central de toda a Rússia dos Sovietes de Deputados Operários e Soldados. &lt;br /&gt;7)  Duma: significa qualquer coisa como “organismo deliberativo”. A Duma Imperial ainda funcionou de um modo democrático após o fim do czarismo mas desapareceu em outubro de 1917. &lt;br /&gt;8)  Comitês do exército: foram formados por soldados na frente de combate para diluir a influências dos oficiais do antigo regime após a revolução de fevereiro. Devido ao colapso administrativo do exército, em consequência da guerra mal conduzida, em muitos casos tiveram que assumir o próprio comando das tropas. &lt;br /&gt;9)  Guardas Vermelhos: operários armados, formados pela primeira vez na Revolução de 1905 e que reapareceram em fevereiro de 1917, quando foi necessária uma força para manter a ordem nas cidades. Em todas as crises da revolução, os guardas vermelhos foram chamados a intervir, sem qualquer treino ou disciplina, mas “cheios de fervor revolucionário” (Reed dixit). &lt;br /&gt;10)  Guardas brancos: voluntários da burguesia que surgiram nos dias que antecederam a Revolução de Outubro, para tentar impedir os bolcheviques de abolirem a propriedade privada. &lt;br /&gt;Com a revolução bolchevique, foram extintas todas as organizações políticas, sendo criado o Conselho dos Comissários do Povo, o único organismo que poderia existir durante o período que criaria as bases para a construção do comunismo, a “ditadura do proletariado”, e que vigoraria até o completo desaparecimento do estado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        &lt;strong&gt;Os homens e suas idéias mirabolantes&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Segundo alguns historiadores, o socialismo terá surgido durante a revolução francesa, como uma das muitas correntes de pensamento daquele período, mas foi com Karl Marx e Frederico Engels que ganhou forma e conteúdo com a publicação do Manifesto Comunista em 1848. Nos anos seguintes, os dois pensadores alemães iriam produzir o maior estudo econômico e político da civilização européia até então. Ao contrário dos socialistas da altura, os chamados “socialistas utópicos”, que imaginavam uma sociedade perfeita, Marx e Engles traçaram um caminho para a transformação da sociedade capitalista em sociedade socialista, criando uma nova linha de pensamento que se designou chamar de “socialismo científico”. Em obras como O Capital e o Materialismo Dialético, Karl Marx elabora a mais completa análise do processo civilizatório, demonstrando a inevitabilidade do comunismo com base na teoria da “luta de classes”. &lt;br /&gt;A teoria marxista diz que a luta de classes é o motor que move a história do homem desde o seu princípio. O constante atrito social entre senhores e escravos, no esclavagismo, entre nobres e servos, no feudalismo, entre burgueses e operários, no capitalismo, alavancou a construção de uma sociedade que, numa visão dialética do processo histórico, caminharia no sentido da abolição do sistema de classes, o comunismo. As mudanças seriam impulsionadas pelas organizações de classe e, assim, como a burguesia depôs a nobreza, os proletários organizados iriam derrubar os capitalistas burgueses. O socialismo seria uma etapa intermediária na construção do comunismo, em que elementos do anterior sistema conviveriam com novas estruturas, num período em que a “ditadura do proletariado” gerenciaria o estado, para se defender da contra-revolução burguesa, até a sua extinção. &lt;br /&gt;A revolução proletária seria, pois, inevitável, mas, como acreditava Marx, ela aconteceria num país em que o capitalismo estivesse altamente desenvolvido, “quando as contradições da sociedade se agudizasem ao máximo”, o que se pressupõe que teria que haver um longo período de evolução capitalista e que ela não poderia acontecer em países atrasados e agrícolas. Esta passagem do capitalismo ao comunismo, através do socialismo, seria financiada pela “mais valia” da produção, o lucro capitalista, que seria agora redirecionado pelo estado para a construção da nova sociedade. Por essa ótica, a Rússia de 1917, um país agrário com um pequeno proletariado urbano, não reuniria as condições para o socialismo enquanto não tivesse a sua revolução burguesa. É aí que aparece Vladimir Lênin, que traz novos contributos no plano teórico-prático da revolução socialista, definindo as perspectivas da ação revolucionária durante a fase superior do capitalismo, o imperialismo. Ao se constatar uma dinâmica reformista nos países mais industrializados, o foco revolucionário se deslocaria para os países mais atrasados. Para se chegar lá, era necessário um partido político com disciplina férrea, formado por militantes profissionais, que fosse a “vanguarda da revolução” e conduzisse os operários ao poder. Lênin também acreditava que a guerra provocaria revoluções proletárias nos países europeus, como a Alemanha, e que uma onda socialista varreria o continente. A não concretização dessa expectativa, com o ascensão do nazi-fascimo, deu espaço para que Stálin formulasse a teoria do “socialismo num só país” e instaurasse o seu regime de terror. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       &lt;strong&gt;O comício da estação Finlândia&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       Após a queda do czarismo, a Rússia era governada por um governo de coalizão provisório formado pelos cadetes, pelos socialistas revolucionários (os eseristas) e pelos mencheviques. Os sovietes de operários e soldados e o dos camponeses de toda a Rússia tinham avalizado este governo até a realização de uma assemblea constituinte, marcada para dezembro. Em abril, Lênin abandona o exílio na Suíça e é recebido em apoteose pela população na estação Finlândia, em São Petersburgo*. À multidão, lançou o slogan que iria mudar o curso dos acontecimentos e ser adotado como lema de um povo: “Todo poder aos sovietes*!”. Mas, no seio do partido bolchevique, a questão não foi assim tão pacífica. Os camaradas que tinham tocado o barco interno da organização durante o exílio dos camaradas que agora chegavam com a Revolução de Fevereiro não gostaram muito de serem ultrapassados nas suas convicções. Stálin e Kámenev, burocratas que se acostumaram a com o posto de chefia na ausência do cérebro do partido, mostraram o seu desacordo, argumentando que os camaradas que estavam de regresso estavam a cometer um erro de análise conjuntural. Mas Lênin, que tinha escrito a cartilha do partido, virou o jogo no comitê central, lembrando-lhe as teses principais da revolução: abolição da propriedade privada, a nacionalização da terra e todo poder aos sovietes. &lt;br /&gt;Em suas Teses de Abril, Lênin traça o caminho até a revolução com base na sua análise da conjuntura internacional. Em primeiro lugar, considera que Rússia já tinha dado o primeiro passo com a revolução burguesa e que faltava agora dar o segundo, entregando o poder aos operários e camponeses. O novo regime seria não uma república parlamentar mas sim uma república soviética. Lênin acredita que, apesar do seu partido ser minoritário naquele momento, conseguirá, com a miltância persistente, congregar a maioria e assim legitimizar a tomada do poder. A seguir, qualifica a guerra como uma “guerra de rapina”, entre nações imperialistas, contrária aos interesses do proletariado, que só devem apoiar uma guerra que deponha a burguesia, advogando a paz imediata. Por fim, o Lênin estabelece um amplo plano de nacionalizações dos meios de produção e distribuição, de toda a terra e do sistema bancário, que seriam controlados pelos sovietes. &lt;br /&gt;Conta-se que Lênin, no dia a seguir a chegada do exílio, reuniu-se com o comitê central do partido pela primeira vez e enfrentou a resistência dos seus camaradas. O futuro primeiro chefe de estado soviético ouviu o que os seus pares tinham a dizer e, quando começou a falar, sempre de olhos fechados, não desviou uma linha do pensamento erigido ao longo de tantos anos de exílio. Quando terminou a sua intervenção, os demais perceberam que os cegos, até aquele momento, tinham sido eles, que não tinham descortinado o caminho da revolução. &lt;br /&gt;Apesar das teorias de Lênin terem se concretizado, Stálin nunca digeriu muito bem o fato de os membros mais experientes do partido serem membros da intelectualidade. Até Trotski, que aderiu ao partido nos dias que antecederam a revolução, tinha maior influência que o próprio Stálin. O que os separava, ao fim e ao cabo, eram as suas origens sociais, pois tanto Lênin como Trótski eram filhos da pequena burguesia, enquanto Stálin era filho de operários. Estas diferenças acirraram-se após a morte prematura do pai da revolução, quando a velha guarda do partido começou a utilizar métodos pouco democráticos contra os intelectuais. Em entrevista a um jornalista alemão,  Ludwig XXX, anos mais tarde, Stálin menosprezou a importância do exílio na formação revolucionária, argumentando que não era preciso viajar ao estrangeiro para se adquirir conhecimentos científicos sobre qualquer coisa. Stálin saiu poucas vezes da Rússia, sempre em deslocações rápidas, sendo que numas destas ocasiões jogou xadrez com Lênin. No entanto, como notou o jornalista, manifestava um profundo desconhecimento dos valores da cultura europeia, mesmo sendo um homem poderoso, que manteve pouco contato ao longo de sua vida com pessoas que tenham passado por um banco de universidade.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          &lt;strong&gt;A luta continua&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;          No verão de 1917, a situação na Rússia piorava de dia para dia. A desorganização generalizada no abastecimento das cidades, causada pela guerra, que tirava os lavradores do campo para alinhá-los nos campos de batalha, era aproveitada pelos especuladores, que açambarcavam víveres e combustível e vendiam em segredo ao exterior. As fábricas fechavam, as linhas férreas estavam quase paralisadas, os roubos e os assaltos proliferavam e a população, na sua maioria, mulheres com os filhos ao colo, tinha que suportar horas na fila, com as suas senhas de racionamento, para conseguir a dose diária de pão, leite, açúcar e tabaco, que era de uma libra (cerca de 500g), mas que foi diminuindo até chegar aos 125g nos dias anteriores ao putch bolchevique. Os agentes da antiga polícia política czarista ainda se mantinham na ativa, juntamente com toda espécie de organizações clandestinas, financiados por industriais e grandes latinfudiários, conjurando planos secretos deter o avanço das forças populares. A política do governo provisório constava de reformas ineficazes e do aumento das medidas repressivas, com a proibição dos jornais revolucionários e o envio dos cossacos para conter os protestos populares nas províncias. A balança da Revolução de Fevereiro, que colocara em dois pratos opostos os sovietes e o governo provisório, o povo e a classe média, estava começando a pender para um dos lados. &lt;br /&gt; Com a sua política de condenação à guerra, o grande problema russo que o governo provisório não havia resolvido, e de reivindicação do poder aos representantes diretos dos trabalhadores, soldados e camponeses, o partido de Lênin atraía milhões de pessoas para o seu discurso. Em junho, toma posse o governo provisório de Aleksandr Kerenski, um eserista que havia sido ministro da Guerra, ordenando uma ofensiva no campo de batalha. Com o falhanço militar russo em 20 de julho, os alemães invadem a Rússia e, em Petrogrado, estala a revolta popular, um levantamento desorganizado dos operários, que ocuparam o palácio de Táurida, antiga residência do czar e onde estava instalado o governo provisório. Com o falhanço da investida, Kerenski, convertido em primeiro-ministro, inicia uma caça aos bolcheviques, que apoiaram o movimento, enviando centenas de militantes para a prisão, entre eles Lev Trotski, que havia aderido à política de Lênin*. Este, por seu turno, consegue escapar, escondido por Stálin. &lt;br /&gt; Em agosto, o sexto congresso do partido bolchevique realiza-se na clandestinidade e confirma as Teses de Abril de Lênin como linha programática. No final do mês, a cidade de Riga cai em mãos dos alemães e Kerenski demite o general Kornilov, que, por seu turno, decide avançar sobre Petrogrado, numa tentativa de golpe militar patrocinada por ingleses e franceses, mas a sua investida é travada pela população armada da cidade, com os bolcheviques na primeira fila da resistência. O general golpista é detido pelos comitês de soldados, ministros e generais do governo são demitidos e o gabinete de Kerenski cai. Os bolcheviques, que são libertados das cadeias na sequência do golpe falhado, são os primeiros a apoiar Aleksandr Kerenski na formação de um novo governo. A estratégia do partido de Lênin era simples: antes um governo provisório do que o regresso da ditadura. Com esta atitude, cresce a influência dos bolcheviques, que ganham as eleições municipais em todo país no início de setembro, ocupando a maioria dos postos nos sovietes locais, fábricas e comitês de soldados. Lev Trotski é eleito o representante máximo do soviete de Petrogrado.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt; &lt;strong&gt;O cerco aperta-se&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; No início do mês de setembro, a realização de um congresso geral dos sovietes de toda a Rússia estava na ordem do dia, que o governo provisório tentava a todo custo impedir. Os bolcheviques haviam ganho a maioria nos sovietes de Petrogrado, Moscou, Odessa e Kiev, e advogavam que essas organizações tomassem o poder, decretassem a paz imediata e entregassem o controle da industria aos operários e as terras, aos camponeses. Apesar da crescente agitação popular, a vida na Rússia prosseguia como se não se estivesse à beira de uma revolução, com as senhoras da pequena burguesia a tomar chá todas as tardes, com os seus serões de poesia, e com os teatros cheios para ver as novas peças de bailado e os salões dos hotéis repletos de jovens oficiais, que galanteavam jovens prendadas, que continuavam com as suas classes de francês, todos desejando o regresso do czar ou, ainda que os alemães invadissem a Rússia e resolvessem o problemas dos criados, que agora se haviam rebelado. Os cassinos continuavam abertos até o amanhecer, com apostas que chegavam aos milhares de rublos, e os cafés eram frequentados por prostitutas, que vestiam casacos de pele e ostentavam jóias caras. Até o Exército da Salvação, uma novidade na Rússia daqueles dias, continuava a ocupar as ruas com a sua bandinha, convidando os russos para os seus encontros.&lt;br /&gt; O Instituto Smólni, às margens do rio Neva, era o quartel-general do soviete de toda a Rússia e também do soviete de Petrogrado. Construído no tempo do império, era uma escola de freiras para as filhas da nobreza russa e tinha sido tomado pelas organizações revolucionárias. Os sovietes, os comitês de fábrica, os sindicatos haviam ocupado grandes parte das salas do grande edifício, num corrupio de soldados e operários dia e noite, conspirando a revolução, dormindo às centenas, espalhados no chão, por toda a parte. Um refeitório no andar térreo, organizado pelos sovietes, com grupos de voluntários, homens e mulheres, a preparar sopas de couve com carne, em grandes caldeirões, juntamente com o pão preto, dava de comer a milhares de operários que acorriam ao edifício. No meio dessa agitação, com o governo provisório pretendendo extinguir todas as organizações independentes de operários, soldados e camponeses, o congresso dos sovietes de toda a Rússia é marcado para o dia 25 de outubro (7 de novembro pelo atual calendário). &lt;br /&gt; No início de outubro, por iniciativa de Trotski, o soviete de Petrogrado cria um comitê militar revolucionário, que toma a seu comando as tropas de exército sediadas na cidade, cerca de 60 mil homens, e que constituíram desde sempre a maior força armada e organizada a serviço da revolução, que mantiveram a ordem nos dias tumultuados de fevereiro e que neutralizaram o contragolpe do general Kornilov. Com a famosa guarnição de Petrogrado sob o seu controle, os bolcheviques têm praticamente o poder em mãos mas preferem esperar pelo congresso para legitimar a sua tomada. Numa última jogada política, os eseristas de esquerda aderem aos bolcheviques e fazem um pacto de ação. Do outro lado das barricadas que se formam, o governo provisório, pressentindo o perigo, convoca a Petrogrado alguns batalhões mais leais, de guarnições afastadas, e instala a artilharia de junkers, alunos da escola militar, em frente ao Palácio de Inverno. É decretado o estado de sítio e os cossacos aparecem nas ruas da cidade. Um comitê de salvação nacional é criado pela coligação de partidos que formam o governo. A tensão aumenta mas o partido de Lênin não dá sinais de que vá iniciar uma revolta. Numa reunião alargada do comitê central do partido bolchevique, com a presença de representantes do soviete de Petrogrado, dos comitês de fábrica, dos ferroviários e dos responsáveis militares, no dia 29 de outubro, Lênin vê aprovada a sua proposta de sublevação, com 19 votos a favor, dois votos contra e duas abstenções.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        &lt;strong&gt;Todo o poder aos sovietes&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; O assalto ao poder pelos bolcheviques foi planejado de forma a coincidir com a abertura dos trabalhos do congresso dos sovietes de toda a Rússia. Na madrugada do dia 7 de novembro, as centrais telefônica e telegráfica, assim como o banco do estado, foram tomados por regimentos da guarnição de Petrogrado e pelos guardas vermelhos, que já estavam de regresso à ação com o seu fervor revolucionário. Blindados com bandeiras vermelhas dos sovietes ocuparam posições no centro da cidade, isolando as imediações ao Palácio de Inverno. Em Kronstadt, 25 mil marinheiros armados mantiveram-se em estado de alerta para a defesa da revolução. O governo provisório continuou em funções, mas já não tinha qualquer influência no rumo dos acontecimentos. Kerenski permaneceu até o nascer do dia no quartel-general do estado maior, impossibilitado de agir. Os cossacos e os junkers das escolas militares de Petrogrado foram neutralizados e os batalhões provenientes do interior, barrados à entrada da cidade, com os soldados aderindo imediatamente à revolução.  &lt;br /&gt;Com o sol, a revolução ganhou as ruas de Petrogrado. Milhares de trabalhadores, homens e mulheres, uniram-se às tropas na espera do desenrolar dos acontecimentos. Havia ainda um vácuo no controle do poder mas não se verificaram desordens, saques ou motins de qualquer espécie. Kerenski abandonou a cidade num automóvel para se juntar aos regimentos que havia convocado, na tentativa de fazê-los marchar sobre Petrogrado. No Palácio de Inverno, reinava a confusão. Secretários e funcionários andavam para todo o lado sem saber onde estavam os seus superiores, sem notícias do mundo exterior. Alguns regimentos de jovens oficiais das escolas militares aguardavam aquartelados há dias o ataque bolchevique, mas não tinham a certeza se este viria ou não. Os Batalhões Femininos, em cujas fileiras alinhavam voluntárias da pequena burguesia, também estavam no edifício, como última trincheira da cambaleante aristrocracia russa. Durante o dia, do lado de fora do palácio, soldados aguardaram ordens do comitê militar revolucionário, garantindo que não abririam fogo, pois não disparariam contra mulheres russas. &lt;br /&gt;No Instituto Smólni, os trabalhos do congresso dos sovietes de toda a Rússia começaram quando passavam das dez da noite, coincidindo com o início dos bombardeamentos ao Palácio de Inverno. O putch foi rápido e indolor. Os junkers abandonaram as espingardas nas tricheiras e debandaram, deixando o palácio a mercê dos soldados e da Guarda Vermelha. O governo provisório foi detido. No edifício da Duma Municipal, que ainda se mantinha em funções, foi criado mais um comitê de salvação nacional para organizar a resistência aos bolcheviques. Com os rebentamentos a serem ouvidos por toda a cidade, as facções menchevique e eserista abandonaram em protesto o congresso dos sovietes. Em completa maioria, os bolcheviques fizeram aprovar uma moção onde o congresso assume o poder na Rússia. Inicialmente relutantes, os eseristas de esquerda aderiram à estratégia leninista, esquecendo as diferenças. Eram quase seis da manhã quando foi anunciado que o 12º exército enviava saudações ao congresso dos sovietes e informava que um comitê militar havia tomado o comando da frente norte. Lênin e os operários de Petrogrado haviam derrubado o governo provisório, autenticado o golpe no congresso dos sovietes e agora só faltava que toda a Rússia aderisse à revolução. Poucos acreditavam que os bolcheviques se mantivesem mais de três dias no poder, a não ser Lênin e Trótski e os milhares de operários e soldados rasos que os seguiam naqules dias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     &lt;strong&gt;A paz a qualquer custo&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;     No dia a seguir ao golpe bolchevique, a tranquilidade aparente regressou ao quotidiano de Petrogrado. As lojas e os restaurantes estavam abertos, os operários regressaram ao trabalho, transportados pelos bondes do serviço público, que continuaram em atividade. Para manter a ordem, os bolcheviques proibiram os saques e as desordens, prometendo a pena de morte para os especuladores. A duma municipal e o comitê de salvação mantiveram-se reunidos em permanência, contabilizando os apoios na resistência. Os jornais, que circulavam como habitualmente, insurgiam-se contra o golpe. Naquele seu primeiro dia de vida, o governo dos bolcheviques não começou muito bem. Os ferroviários não reconheciam os bolcheviques e os funcionários dos telégrafos e dos correios haviam se negado a colaborar. No Smólni, os bolcheviques não tinham mãos a medir com as novas incumbências, como tomar conta do governo, manter a ordem na cidade, alastrar a insurreição às províncias, preparar a defesa contra Kerenski, que estava se preparando para contra-atacar. &lt;br /&gt;No Instituto Smólni, o congresso dos sovietes reunido era o próprio governo em funções. As medidas do nascente estado soviético eram aprovadas ali mesmo, no calor das discussões, com operários, soldados e camponeses participando juntamente com os bolcheviques. Os pontos de vista da cúpula bolchevique não eram partilhados por todas as facções presentes no congresso, mas Lênin sempre soube levar a sua causa a bom porto, ganhando com as suas palavras o apoio da maioria. Presente no congresso, John Reed fez a seguinte descrição do fundador do estado soviético: “Figura pequena e entroncada, de grande cabeça calva e protuberante, metida nos ombros, vestia um terno coçado em que as calças eram demasiado compridas. Nada tinha de especial para ser um ídolo das multidões, mas foi amado e venerado como poucos dirigentes na história. Estranho dirigente popular - dirigente só pelo poder do intelecto, sem brilho, sem humor, intransigente e desprendido, sem idiossincrasias pitorescas - mas com o poder de explicar idéias profundas em termos simples, aliando a sensatez a um grande arrojo intelectual”. Naquele segundo dia de trabalhos, ovacionado pelos milhares de delegados ao congresso, Vladimir Lênin apresentou à votação o 1º decreto do novo governo, o decreto da paz, que foi aprovado por unanimidade. Aos governantes dos países beligerantes, propôs uma trégua imediata, seguida de conversações formais em que a paz tinha que ser obtida qualquer custo, nem que isto significasse a entrega de território aos alemães, para satisfação das suas exigências. &lt;br /&gt;Noite adentro, os bolcheviques seguiram alinhavando o tecido em que se iria coser o embrião da nova sociedade. Lênin apresentou à votação o segundo decreto da história do poder soviético, em que propunha a abolição da propriedade privada da terra, com todas as propriedades pertencentes à coroa, aos latifundiários, à igreja, incluindo o gado e as alfaias agrícolas, postos à disposição dos comitês de terra locais e sovietes camponeses. O decreto foi aprovado com apenas um voto contra e os bolcheviques passaram à fase seguinte. Eram duas e meia da madrugada quando Kamenev anunciou a constituição do poder que vigoraria até à realização da assembléia constituinte, com a criação do Conselho dos Comissários do Povo. Lênin era o presidente do conselho, Trotski, o responsável pela relações exteriores, e Stálin ficou com a pasta das nacionalidades. Os eseristas, em menor número, também estavam representados no novo governo. A constituição do conselho dos comissários do povo foi a votos, vencendo por maioria, e, a seguir, foram eleitos os novos representantes do soviete geral de toda a Rússia, onde os bolcheviques ocuparam a maioria dos assentos. &lt;br /&gt;Apesar do abandono dos mencheviques e dos eseristas de direita, muitas outras facções políticas permaneceram ainda no congresso, legitimando a ação bolchevique, participando na constituição do novo governo. A revolução russa tinha sido, até ali, um constante processo de discussão dos caminhos do país, e continuou a sê-lo mesmo depois da tomada do Palácio de Inverno. Recorde-se que Lênin apostou no lema “todo o poder aos sovietes” quando os bolcheviques ainda não eram a maioria e, mais tarde, num congresso maioritário, continuou a debater as estratégias da revolução, tentando sempre reunir o consenso dos muitos grupos revolucionários representados no encontro. Os decretos aprovados foram sempre objeto de acesa discussão, num clima de grande democracia. Lênin sabia que os operários e camponeses tinham que sair unidos daquele congresso porque os esperava um vendaval lá fora. O caminho era longo e instável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       &lt;strong&gt;O regime de partido único&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;       Os bolcheviques haviam chegado ao poder e agora não restava outra alternativa senão defendê-lo com unhas e dentes. Desde o primeiro instante, a jovem nação foi atacada por todos os lados. Com o tratado de Brest Litovski, os russos acordaram a paz com os alemães, mas a guerra não tardou em chegar. Antigos generais czaristas, comandando tropas de voluntários da burguesia russa, invadiram o país em várias frentes, com o apoio des tropas inglesas e francesas. Foi o início da guerra civil, que durou até 1922, com a vitória do Exército Vermellho, brilhantemente liderado por Trotski. Neste período, chamado de “comunismo de guerra”, toda a produção foi confiscada pelo estado em virtude do esforço de guerra. A nível interno, as medidas drásticas não se fizeram por esperar. Seguindo o exemplo clássico de Robespierre, os bolcheviques não hesitaram em utilizar a força contra os que se puseram no caminho da revolução. Em janeiro de 1918, a assembleia constituinte, a quem deveria ter sido entregue o poder, foi dissolvida. Poucos dias depois, um terceiro congresso dos sovietes de toda a Rússia se declarou depositário único do poder e entregou o governo ao Conselho dos Comissários do Povo. O Partido Comunista passou a ser o único partido legal. Em agosto, já depois do início da guerra civil, a família real dos Romanov é fuzilada. No X congresso do partido, em 1921, foi proibida a existência de facções no seio da própria organização. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        &lt;strong&gt;O Estádio Lênin&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        Quem combinava os meus encontros com a russinha Lídia pelo telefone era Valôdia, apelido de Vladimir, o primeiro russo com quem travei amizade na Lumumba. Ele vivia no quarto ao lado do meu e nos entendíamos em francês. Um dia, as aulas ainda não tinham começado, aparece com dois bilhetes para o futebol e me convida para ver a URSS enfrentar a Polônia no Estádio Lênin. Os soviéticos venceram o embate por dois a zero mas a emoção maior deu-se antes do jogo. Minutos antes do pontapé inicial, o estádio, com capacidade para cem mil pessoas, estava com a sua lotação pela metade. De repente, milhares de soldados do exército, da tropa do serviço militar obrigatório, começam a entrar por todas as portas de acesso às arquibancadas. Levei um susto e até pensei numa situação de perigo, sei lá, um qualquer ato terrorista, ou ainda um golpe de estado. Valôdia riu e me tranquilizou. Como o exército soviético era muito grande, com mais de 7 milhões de efetivos, sempre havia pessoal disponível para encher uma arquibancada. Nos cinemas, havia sempre um batalhão, a qualquer hora em qualquer uma das centenas de salas de Moscou. Após a subida de Garbatchov ao poder e a perestroika, quando o rock tomou de assalto o país, os concertos saíram do submundo para estádios repletos de soldados, que não hesitaram em aproveitar os ventos de liberdade para requebrar o corpo ao som das guitarras elétricas. Até os brasileiros do grupo Engenheiros do Hawaii tiveram o privilégio de uma platéia destas quando atuaram em Moscou em novembro de 1989 no único show em que a sala de espetáculos não foi ocupada apenas pelo brasileiros da Lumumba e seus amigos. &lt;br /&gt;Em 1985, voltei ao Estádio Lênin para assistir o Brasil ser campeão do mundo em (...), vencendo a (....) por um a zero. Chovia a cântaros e ficamos completamente encharcados. Apesar da chuva, o grupo de brasileiros fez um berreiro que chamou a atenção do estádio inteiro. Imaginem se tivessem deixado passar os instrumentos de percussão, que a polícia confiscou na entrada. Marcos, Zau e eu não fomos com os brasileiros ao estádio mas antes com Misha e Gênia (Michail e Evgueni, respectivamente), os nossos primeiros amigos moscovitas, que aproveitaram que estavam conosco para berrar como se fossem estrangeiros, já que aos soviéticos não eram permitidas tais manifestações nas provas esportivas. Duas semanas mais tarde, decorreu no estádio a abertura do festival da juventude dos países socialistas, que se realizava periodicamente e era uma montra da arte, cultura e desporto dos países que giravam na órbita de Moscou. Eu vivia a quatro quilómetros do estádio e assistia pela televisão. Onde eu morava, a chuva continuava mas no estádio fazia sol. Os soviéticos, nos dias de festa, costumavam limpar o céu onde iriam decorrer as solenidades oficiais, bombardeando um produto químico nas nuvens com a ajuda de aviões da força aérea.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113120566382210224?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113120566382210224/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113120566382210224' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120566382210224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120566382210224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/festa-da-revoluo.html' title='A festa da revolução'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113120503897775145</id><published>2005-11-05T07:36:00.000-08:00</published><updated>2005-11-05T07:37:18.983-08:00</updated><title type='text'>A língua russa</title><content type='html'>O meu progresso rápido com a língua russa deu-se por vários motivos. Em primeiro lugar, por causa do meu professor, que falava espanhol muito bem, pois havia morado em Cuba, e tinha um método muito rápido de aprendizado.  O russo é uma língua como o latim e o alemão, em que quase não se utilizam as preposições e não há artigos.  Para dar sentido aos verbos, o predicado sofre variações, as chamadas “declinações”, que tanto sofrimento causaram aos estudantes brasileiros do liceu quando o latim era uma língua obrigatória, antes de ser abolida nos anos (?). Por exemplo, no caso dos nomes terminados em “ov” ou “ev”, esta terminação significa “da família de”. No caso de Garbatchov, o “ov” indica que ele pertence à família dos “gorbis” (que em russo significa corcunda). Ao contrário de outros professores, que utilizavam o manual indicado para estrangeiros, em que a língua era ensinada aos poucos, o professor Vassili preferiu-nos explicar-nos os casos da língua (que variam em função dos verbos e determinam a declinação) e partir logo para a prática. Para isso, ele tinha uma grande tabela com as terminações dos cinco casos da língua russa e, a cada aula, torpedeava-nos com perguntas, obrigando-nos a falar. Enquanto isso, a maioria dos professores adotava o método oficial e ia dando os casos aos poucos, no decorrer do ano letivo. Alguns anos mais tarde, quando fui deportado da Inglaterra e passei seis meses no Brasil, tive a oportunidade de utilizar o método do professor Vassili. Dei aulas a três turmas da Casa de Amizade Porto Alegre-URSS e lições particulares ao jovem pianista porto-alegrense Alexandre Dossin, que ganhara uma bolsa para o Conservatório Tchaikovski. Despejei-lhe logo os casos em cima e em dois meses ele estava já pronto para se defender em Moscou. Outro fator que não se pode desprezar é que na União Soviética não havia mais que cinco ou seis alunos em cada sala de aula, o que aumentava muito o rendimento dos estudantes. Com uma turma maior, é necessário respeitar o ritmo de aprendizado de cada um, enquanto que, com menos alunos na sala de aula, é possível uma maior proximidade e um melhor acompanhamento.  &lt;br /&gt;Outra ajuda preciosa no idioma recebi de uma estudante russa que conheci logo na primeira semana, quando todos os brasileiros da Patrice Lumumba foram levados a assistir um festival de música. Lídia tinha 17 anos e estudava numa escola especial para desenhistas. Estas escolas especiais eram a grande diferença que o sistema soviético de ensino apresentava em relação ao inimigo do ocidente. Se a criança tivesse habilidade em algum instrumento ou aptidões para a ginástica, era logo desde a escola primária inscrita num destes estabelecimentos. Ou seja, a especialidade era obtida nos três diferentes níveis de ensino, do primário ao superior. Os soviéticos sempre deram muita importância à arte e ao esporte, que serviam também de propaganda do regime, como os bailarinos do Bolshoi ou os atletas nos Jogos Olímpicos. O mal de tudo isto é que o destino de cada criança era forjado pelas orientações políticas dos membros do PCUS. Só os melhores cursavam o ensino superior. Lídia contou-me que ela não era uma aluna muito dotada e que, no final da escola, teria que trabalhar. Provavelmente, iria ser indicada a alguma editora e ilustrar livros escolares ou de leitura. De certa forma, o sistema estruturava a vida da pessoa, desde a infância, subsidiando o ensino e conferindo-lhe uma espécie de “salário”, o estipêndio, até terminar o curso superior, para no final lhe arranjar um emprego. Juntamente com o diploma, aos formandos era estipulada uma tarefa: trabalhar rumo ao socialismo. &lt;br /&gt;Quando conheci Lídia, eu não falava um ai em russo, pois as aulas ainda não haviam começado. Ela era muito bonita e parecia-me um sonho naquele seu uniforme de colegial. Eu estava no hall do teatro onde decorria o festival, quando alguém me falou qualquer coisa em russo. Um estudante mais antigo que estava do meu lado, também ele brasileiro, explicou que uma turma de desenhistas queria fazer o meu retrato em carvão. Acedi, meio incrédulo, e foi aí, enquanto eu posava,  que os nossos olhos se cruzaram e pintou logo uma grande atração mútua. No final, eu queria comunicar com ela, mas não nos entendíamos. Ela não falava nada de inglês e então peguei-a num braço e procurei alguém que servisse de intérprete. A coincidência maior viria revelar-se agora. Ela morava na mesma estação de metrô da universidade e marcamos de nos encontrar no domingo. &lt;br /&gt; Prevendo dificuldades de comunicação, comprei dois dicionários pequenos (russo-inglês e vice-versa), que foram de muita valia. No princípio do nosso relacionamento (que durou até o regresso das férias de inverno), limitávamos a apontar palavras no dicionário para nos fazer entender. Quando as aulas começaram, eu pude colocar em prática os preciosos ensinamentos do professor Vassili. Naquele primeiro dia, Lídia me levou a conhecer a belíssima Galeria Tretiakov, o mais completo museu da arte russa do país. À porta da galeria, havia uma fila quilométrica, que dava volta ao quarteirão. Lídia não se perturbou e, a um dos guardas da polícia que fazia a segurança, mostrou a sua caderneta de estudante, argumentando qualquer coisa naquela língua estranha e apontando para mim. O guarda olhou em minha direção, refletiu por alguns instantes e fez sinal para que entrássemos, para espanto meu. Lídia me explicou depois que havia dito ao guarda que éramos estudantes e que nos haviam encomendado um trabalho urgente. Certamente, o polícia não quis se meter em complicações, pela maneira ocidentalizada como nos vestíamos. Ao contrário da imensa maioria dos soviéticos, que só tinham a sua disposição roupas de confecção ordinária, a russinha usava um casaco de peles comprado no estrangeiro, o que só por si fazia supor que não pertencia a uma família qualquer. Eu, com os meus cabelos compridos, e Lídia bem podíamos ser filhos de algum general, diplomata ou artista de renome. Foi assim que descobri que, na União Soviética, também se davam carteiraços. &lt;br /&gt;Após a visita à galeria, Lídia levou-me a passear no Parque Gorki, à beira do rio Moscou, onde milhares de moscovitas passeiam no fim de semana. Desta vez, Lídia não pôde evitar a fila para a roda-gigante e lá ficamos à espera da nossa hora, atrás de algumas dezenas de outros casais. Entrar numa fila e esperar por muito tempo para fazer alguma coisa, como ir a um restaurante ou apenas comprar laranjas, era uma coisa que fazia parte do cotidiano das pessoas no leste europeu e ninguém parecia importar-se muito com isso. Enquanto aguardávamos, procurei o significado de montanha-russa no dicionário e qual não foi a minha surpresa quando descobri que os russos a chamavam de montanha-americana. A guerra fria havia chegado aos equipamentos de diversão. Deve ter sido obra de algum funcionário do partido, pensei eu, ou quem sabe não foi o Politburo que decidiu, na mais alta instância do pais, que era necessário responder à letra a esta provocação do imperialismo americano. Tentei explicar para Lídia, mas ela não percebeu o que eu queria dizer, pelo que desisti da tarefa. Era melhor não provocar um incidente diplomático na nossa recém estabelecida relação, entendi eu. &lt;br /&gt;A roda-gigante era mesmo gigante. A vista lá do alto acabava por compensar aquela espera toda. Além do mais, movimentava-se muito devagar e acabamos por passar uma boa meia hora sentados. Aproveitei o momento para apanhar Lídia desprevenida e beijar-lhe. Ela correspondeu desajeitadamente e percebi que era o seu primeiro beijo. Raios. Apesar de eu ter 23 anos naquela época e ser apenas seis anos mais velho, senti-me corrompendo aquela beleza adolescente. As russas não eram nada ingênuas, principalmente as moscovitas, soube depois, mas Lídia era a primeira que conhecia e aquela foi a primeira impressão. Depois do beijo, a russinha deu-me a mão. Era a oficialização do namoro. Quando já começava a dominar o russo, Lídia me explicou que somente a sua mãe sabia do nosso envolvimento. Era um risco muito grande para a sua família. O seu pai era físico nuclear e a nenhum familiar era permitido manter contato com estrangeiros. &lt;br /&gt;O meu namoro com a russinha não passou de um relacionamento adolescente. Lídia era mesmo uma menina especial, que me amava, e tinha sido educada para ser uma boa esposa. Para ela, não havia dúvidas de que seríamos marido e mulher. Eu não queria magoar-lhe mas também estava apaixonado. Sabia o quanto era quase impossível aquele amor, por várias razões, mas não conseguia deixar de comparecer àqueles encontros, onde dávamos longos passeios em parques cobertos de folhas amareladas por causa do outono. Foi por esta altura que aprendi a dizer em russo as palavras sol, coração e amor. &lt;br /&gt;A nossa relação terminou quando Zau me deu um ultimato na viagem de férias a Leningrado, na segunda semana de janeiro do ano seguinte. Quando vivíamos no Brasil, a bela baiana Zau apregoou sempre uma relação aberta, não fosse a Bahia a extensão da África no Brasil, terra do muso da contracultura brasileira, Caetano Veloso, que por sinal é de Santo Amaro da Purificação, no recôncavo baiano, a mesma cidade onde Zau nasceu. Quando fiz-lhe ver esta prerrogativa que eu tinha, aceitou contrariada que eu me encontrasse com Lídia, pois eu não fiz segredo da nossa relação. Só que o namoro já durava uns meses e eu, pressentindo que a coisa poderia ficar mesmo séria, resolvi acabar com tudo. No regresso das férias, menti a Lídia que iria regressar ao Brasil. A russinha ficou desolada e eu me senti um patife. Na hora da despedida, Lídia chorava copiosamente. Foi com um nó na garganta que fiz desaparecer da minha vida aquela linda adolescente russa, que significava para mim um mundo completamente diferente e excitante, com uma pitada de romance de espionagem no tempo da guerra fria. E quem sabe não era mesmo, pois não era de duvidar que o KGB seguisse atentamente os passos dos familiares de físicos nucleares. &lt;br /&gt;Anos mais tarde, estudava eu música na escola de música Gnessin, quando reencontro Lídia no metrô. Por coincidência, as nossas escolas se localizavam perto uma da outra e inclusive a estação do metropolitano era a mesma da Galeria Tretiakov, o que me fazia temer que um dia iria vê-la novamente. A linda russinha havia perdido a inocência juvenil e era agora uma mulher madura. Contou-me que sofreu bastante após a nossa separação e que não conseguiu me esquecer durante muito tempo. Que desenhou o meu rosto em todas as ilustrações que fez e me vestia de oficial de cavalaria a comandar exércitos em batalhas históricas. Me sentindo muito mal, expliquei-lhe o porque da minha atitude com o máximo de sinceridade. Mas Lídia já não acreditava no amor, a experiência da vida tinha lhe tirado esta esperança. Contou-me que o pai havia morrido (ou assassinado, pensei eu), que juntou-se com um rapaz, contra a vontade da mãe, indo viver com os sogros, mas que já havia regressado à casa por causa dos problemas de alcoolismo do seu companheiro. Revelou-me que não chegou a gostar dele como havia gostado de mim e que fui sempre o maior amor da sua vida. Desta vez, ao contrário da primeira vez que nos encontramos, entendi Lídia na perfeição. Disse que gostaria de me ver novamente e que o seu número de telefone continuava o mesmo. Prometi que ligaria, mesmo sabendo que não. O encanto havia se quebrado para sempre. Senti uma ponta de remorso por tudo o que fiz. Pensei que podia ter salvo Lídia do seu destino, o de uma moça moscovita esmagada pelo peso de uma sociedade que não lhe dava muito espaço para a individualidade. A russinha era mais uma peça do grande coletivo soviético, com a existência igual a de milhões de jovens moças da sua idade, que viviam na casa dos pais e que tinham maridos ou namorados que gostavam de abusar do vodka. &lt;br /&gt;O conhecimento do idioma russo viria a ser de grande utilidade mais de dez anos depois de ter saído de Moscou, quando morava em Portugal e havia me tornado jornalista. Revertendo um fluxo histórico e secular, em que milhões de portugueses deixavam a pátria em busca de uma vida melhor, o pequeno país à beira-mar plantado passou a ser um destino de imigrantes na virada do milênio. A construção de importantes infra-estruturas no país, financiadas pela União Europeia, deu trabalho a milhares de cidadãos das antigas repúblicas soviéticas, que abriram as fronteiras com a queda do comunismo e ingressaram numa crise econômica sem precedentes. Este ciclo de obras em Portugal começou com a Exposição Universal de Lisboa, em 1998, e teve continuidade com a construção dos estádios e infra-estruturas para o campeonato europeu de futebol de 2004, coincidindo com o período de maior entrada de fundos da União Européia. Neste período, Portugal concedeu vistos de trabalho temporário a mais de 400 mil estrangeiros, que vieram dar um impacto positivo na economia portuguesa. Mais de metade dos novos imigrantes eram das repúblicas ex-soviéticas e falavam russo, que era a língua imperial. Como eles chegavam a Portugal e não entendiam nada, criei o primeiro programa de rádio no país em língua russa, numa emissora de âmbito regional com sede em Almeirim, cidade do distrito de Santarém. Em pouco tempo de antena, a audiência do programa se multiplicou e atingiu o seu auge durante o período de legalização extraordinária de estrangeiros aberto pelo governo português. No programa, eu tentava dar informações sobre a legislação e respondia em direto às questões dos ouvintes, que ligavam para o estúdio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113120503897775145?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113120503897775145/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113120503897775145' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120503897775145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120503897775145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/lngua-russa.html' title='A língua russa'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113120496727929109</id><published>2005-11-05T07:33:00.000-08:00</published><updated>2005-11-05T07:36:07.280-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/879/1832/1600/lumumbafogo.0.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/879/1832/320/lumumbafogo.0.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fogo que consumiu parte do edifício número 15 da Rua Miklurro Makláia, onde os estudantes da preparatória vivem os primeiros tempos (2005)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113120496727929109?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113120496727929109/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113120496727929109' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120496727929109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120496727929109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/fogo-que-consumiu-parte-do-edifcio.html' title=''/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113120474114821031</id><published>2005-11-05T07:27:00.000-08:00</published><updated>2005-11-05T07:32:21.156-08:00</updated><title type='text'>A Lumumba</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/879/1832/1600/lumumba1.2.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/879/1832/320/lumumba1.2.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;Prédio principal da Patrice Lumumba&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A Universidade Patrice Lumumba era patrocinada pelos sindicatos soviéticos  e havia sido criada em 1961 com o objetivo de ajudar os países do então chamado terceiro mundo. No auge da guerra fria, foi pensada, talvez de maneira algo ingênua, como um instrumento de propaganda, em que estudantes de países pobres teriam acesso ao ensino universitário e depois iriam contar maravilhas sobre a União Soviética, que tinha lhes proporcionado um diploma. Para um soviético, estudar na Universidade Patrice Lumumba não era lá muito prestigiante porque o nível de ensino era extremamente baixo. A principal universidade de Moscou é a Lomonossov, a maior do mundo, e onde as exigências de ingresso são outras. Para estudar na Lumumba, não era preciso fazer prova alguma de acesso. O único teste a que me submeti foram algumas equações matemáticas e químicas antes do início das aulas para verificar o meu grau de aprendizado. Quem tivesse uma má prestação nas ciências exatas fatalmente seria transferido para um curso nas áreas humanas, pois seria muito dispendioso para a universidade enviar estudantes de volta para casa. No segundo semestre da preparatória, eu fui colega de uma estudante da Nigéria que não falava nenhuma língua a não ser o seu dialeto natal. Ela estava simplesmente sendo alfabetizada na sala de aula da Lumumba, em russo, utilizando pela primeira vez na vida uma caneta. A professora que tive no segundo semestre foi quem descobriu em plena aula, verificando que ela falava um dialeto que era uma mistura de inglês, holandês e a língua dos seus antepassados. Mas o que fazer com ela? Já que não podia ser médica ou engenheira, então estudaria russo e seria professora. Com apenas o curso superior no seu currículo acadêmico. &lt;br /&gt;Nos países de origem, os estudantes eram recrutados a maior parte através dos partidos comunistas locais. Havia também quem fosse estudar pelas Casas de Amizade pró-soviéticas que existiam espalhadas pelo mundo e também gente ligada a movimentos armados, como os sandinistas nicaraguenses ou os guerrilheiros palestinos. É curioso que os partidos comunistas não enviassem para estudar na ex-URSS seus elementos importantes, e sim simpatizantes, na sua maioria, ou apenas militantes com pouca expressão na estrutura partidária. Esta mistura de latinos, árabes e africanos criava um clima estranho nos corredores da universidade. As fotos do Che Guevara, as bandeiras dos movimentos de libertação dos vários países, estudantes com idade de quem já não devia estar num banco universitário, tudo isto nos dava a impressão de que aquele era um lugar pejado de revolucionários, prontos para derrubar todas as tiranias do ocidente capitalista. Que nada, a grande maioria dos alunos era de origem humilde, de países pobres, e estava lá porque aquela era uma oportunidade de se obter um diploma universitário. Muitos eram pessoas que ali iam parar e não se adaptavam. Ex-guerrilheiros cheios de traumas, simpatizantes da causa na meia-idade sem cabeça para os estudos, que demoravam a passar de ano, trocavam de curso, em busca de algo mais fácil, numa estadia na ex-URSS que se podia prolongar indefinidamente. &lt;br /&gt;A Patrice Lumumba não era um centro de treinamento de guerrilheiros, como muita gente pensava. Esse papel no mundo já não pertencia aos soviéticos e sim aos cubanos. Mas é verdade que pelos seus corredores circulava muita gente estranha, sobretudo de proveniência árabe. Há uma história curiosa sobre aquele que terá sido o mais famoso ex-aluno da universidade, tendo passado por Moscou em finais dos anos 60. Filho de um alto dirigente do partido comunista venezuelano, (o nome dele), pediu aos soviéticos que lhe dessem treinamento militar, o que foi negado, evidentemente. Segundo consta, foi aí que se envolveu com estudantes ligados ao grupo do terrorista Abu Nidal e desapareceu do país. Começava a carreira de um dos terroristas maiores do século XX, o Chacal. &lt;br /&gt;Poderá haver quem pergunte como conseguiu o Chacal deixar a União Soviética, que tinha um sistema de vistos muito apertado, ainda mais que um estudante só conseguia um visto de viagem se encaminhasse o pedido à reitoria da universidade. O que sei é que eu também tive uma colega venezuelana que casou com um estudante da Jordânia e saiu do país sem autorização. Fomos colegas ainda na preparatória, no segundo semestre, quando mudei de professor e fiquei sem Vassili, indo parar a uma outra sala de aula. A venezuelana tinha se apaixonado pelo árabe e um dia contou na aula que iria deixar os estudos e viajar para a pátria do amado. A professora, uma russa que havia morado dois anos em Londres, tentou demover-lhe da idéia, dizendo que casar com um muçulmano significava perder a liberdade. A menina estava decidida e um belo dia sumiu e nunca mais foi vista, nem ela nem o namorado. &lt;br /&gt;Apesar do baixo salário dos professores universitários, dar aulas no ensino superior tinha as suas compensações. É que geralmente todo professor passava dois anos em um país estrangeiro para aprender uma língua. Este destino estava traçado desde a infância, quando era-lhe imposto um idioma, que podia ser o árabe ou o espanhol. O estado financiava a educação e, neste ponto, os soviéticos não perdiam para os seus inimigos ocidentais, a não ser em luxo e riqueza. Os livros eram fornecidos pela biblioteca da universidade, ou custavam muito pouco nas lojas estatais; as refeições na cantina eram baratíssimas e a qualidade da comida infinitamente superior à de um restaurante popular; os estudantes não pagavam casa, luz ou água, e tinham os lençóis trocados duas vezes por mês. &lt;br /&gt;O sistema era todo muito rígido e havia uma disciplina dentro das salas de aula à moda antiga. Os alunos levantavam-se quando o professor entrava em aula. Para não ter que fazer o mesmo, Marcos e eu decidimos que só entraríamos na aula depois do professor. Era o nosso orgulho Lrevolucionário que vinha à tona nessas horas. Dava às vezes uma grande vontade de confrontação. No Brasil, tanto Marcos como eu tivéramos uma militância de esquerda nos anos 70, com o registro mais que óbvio nos ficheiros da polícia secreta do regime militar instaurado pelo golpe de 64. Enquanto estrangeiros, achávamos que o máximo que poderia acontecer era nos enviarem de volta para casa. Por outro lado, os estudantes soviéticos é quem mais sofriam com o autoritarismo de certos professores e muitas vezes eram humilhados. Teoricamente, para os soviéticos, a Lumumba poderia servir de trampolim para quem fosse do partido, num meio em que havia muitos estrangeiros e muitas solenidades e discursos. &lt;br /&gt;Se entre os soviéticos a Lumumba não gozava de grande prestígio, entre os moscovitas era alvo de chacota. Os estudantes africanos da Lumumba foram provavelmente os primeiros negros a pisar o solo russo, pelo menos depois da revolução de 1917. Chamam-lhe jocosamente “lumumbarium” ou ainda “planeta dos macacos”, em alusão ao famoso filme dos anos 60 protagonizado por XXXXX e que teve uma versão há poucos anos realizada pelo Tim Burton. Hoje em dia, a situação é insustentável para minoria negra no país, pois continuam a estudar estudantes de origem africana. Há também uma nova geração de renegados que são os filhos dos estudantes negros com as russas, crianças mestiças discriminadas por uma crescente onda de xenofobia. Me recordo que já naquela altura havia grupos de moscovitas que reuniam-se para bater em estudantes estrangeiros nas redondezas da universidade. &lt;br /&gt;Para mim, esta fauna internacional da Lumumba era um universo novo, uma espécie de tubo de ensaio da convivência intercultural entre povos do hemisfério sul, os países pobres. Procurei desde o princípio travar conhecimento com todo o tipo de gente, à revelia de um certo padrão estabelecido de que latinos, africanos e árabes não se misturavam. Havia um racismo latente, que fazia com que peruanos ou bolivianos de origem indígena, os cholos, utilizassem termos ofensivos quando se referiam aos africanos. De certa forma, os brasileiros eram o povo mais colorido de todos, terra do rei Pelé, e não sofríamos tanto esta pressão. Pela proximidade da língua, tanto os africanos de língua oficial portuguesa como os latino-americanos pertenciam ao universo em que circulavam os brasileiros, uma minoria na universidade. Este choque de culturas provocava momentos divertidos, por vezes. Havia um equatoriano, chamado Gorki, que tinha dois irmãos, o Lênin e a Maria Krupskaia*. Um dia, após o banho, quando passava talco no corpo, uns afegães que viviam com ele se interrogaram sobre tão misterioso pó, ao que o equatoriano explicou para que servia. No outro dia, quando chegou das aulas e entrou no quarto, deparou-se com uma nuvem branca. Vários afegães haviam voltado do duche (eles gostam de fazer estas coisas em grupo) e agora estava-se na hora da colocação do talco, o que, para eles, era a última novidade. Quando avistaram Gorki, um deles ofereceu o talco, explicando que haviam comprado muito e que havia para todos. Gorki olha para cima da mesa e mal consegue conter o riso quando se dá conta que os afegães tinham comprado um quilo de farinha de trigo. &lt;br /&gt;Os chilenos eram um grupo que se destacavam entre os estudantes da universidade, tanto pela quantidade como pela sua história. Eram exilados do regime ditatorial do general Pinochet, um dos mais sangrentos do século XX. Para a sua segurança, cada um adotava um nome fictício e nem os próprios chilenos sabiam o nome um do outro. Tinham uma vivência muito coletiva, andavam sempre em grupos e tinham, com algumas exceções, um baixo aproveitamento escolar. Talvez pelo fato de que muitos haviam perdido os familiares nas mãos dos militares, aos chilenos era permitida uma certa indolência no cumprimento dos suas tarefas escolares. Pablo, o chileno que viera conosco no avião, repetiu a preparatória e andou muito tempo na Lumumba sem conseguir passar do primeiro ano, até que o enviaram para estudar em Kiev, numa tentativa algo desesperada de fazer com que ele conseguisse estudar. De toda a América Latina, somente uruguaios e argentinos não estudavam na Lumumba. Segundo me disseram, as organizações destes países tinham algum acordo com o estado soviético e os seus estudantes eram matriculados em outras instituições de ensino. &lt;br /&gt;Os estudantes africanos dividiam-se entres os de língua portuguesa, inglesa e francesa. Os que falavam português, provenientes de Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, eram muito simpáticos e afetuosos para com os brasileiros. Eles se consideram como nossos irmãos, por termos sido todos colônias portuguesas, e acham que o Brasil é uma África que deu certo. A falecida cantora Clara Nunes é muito conhecida nestes países pela sua gravação da canção “Morena de Angola”, do Chico Buarque, assim como muitos outros artistas brasileiros. O pessoal do coletivo brasileiro nos avisou de que os angolanos tinham uma maneira muito peculiar de demonstrar as suas emoções e que não nos assustássemos se eles nos pegassem na mão, enquanto conversavam ou passeassem ao nosso lado, pois era uma simples demonstração de afeto. Eu tive dois colegas do Mali que eram muito divertidos. Um deles era irmão de um diplomata em França e tinha uma educação acima da média. O outro tinha o corpo coberto de tatuagens, que identificavam a tribo à qual pertencia. Este último, Dúmbia, era alto e forte e metia medo aos professores pelo seu jeito brusco. Numa aula de história, ainda na preparatória, o professor estava a falar da Revolução de 1917 na Rússia e Dúmbia queria explicar o seu conceito de socialismo. Como este não lhe deu atenção, ele resolveu levantar-se e ir ao quadro para explicar. O professor não teve meias medidas e saiu correndo da sala, para espanto de todos, que conhecíamos o Dúmbia e sabíamos que era incapaz de fazer mal a uma mosca. &lt;br /&gt;Ao lado do quarto de Zau, no tempo em que estivemos sozinhos, vivia um grupo de estudantes do Afeganistão. Por causa deles e de mais duas afegãs, que viviam no mesmo corredor, o movimento de afegães era enorme e passamos a conviver com eles e a conhecer várias caras do coletivo afegão, o pessoal do partido, que aparecia por lá, assim como nós recebíamos visitas dos nossos ideólogos. Os muçulmanos são diferentes de nós no que refere ao contato corporal. Enquanto homem e mulher nunca se tocam, a não ser em privado, os homens, entre eles, como diria um amigo meu, “parecem um bando de maricas”. Os homens são carinhosos uns com os outros, dão beijos no rosto, demorados e barulhentos, e quando fazem uma festa, convidam só homens e dançam todos entre eles. Ao contrário dos cinco rapazes vizinhos de Zau, que eram de origem humilde, as duas afegãs eram ricas e belíssimas. Vestiam-se à ocidental, mas de maneira mais clássica. Com a mais bonita delas, tive um pequeno flerte, que acabou porque eu só podia visitá-la em seu quarto se lá estivessem elementos afegães do sexo masculino. Não era por vontade delas, mas sim porque havia um grande controle dos homens muçulmanos sobre as mulheres do seu país. O interessante da história é que foi a estudante afegã a tomar a iniciativa em me conhecer e convidar para um chá em seu quarto. Para aquela afegã, que me fazia recordar a princesa Soraia (que virou ex-princesa porque não conseguiu dar um filho ao xá do Irão), eu era uma fantasia ocidental que ela nunca tinha visto ao vivo. É que cheguei em Moscou com uma grande cabeleira, com a tez bronzeada de dois anos de sol na Bahia e um visual hippie que eu só iria abandonar anos depois. O meu cabelo comprido e encaracolado, verdade seja dita, abriu muitas portas na antiga União Soviética, país em que os jovens não podiam deixar crescer os cabelos. Em Moscou, só quem usava cabelo comprido na rua eram os estrangeiros, uma elite numa população acostumada aos rigores do comunismo. &lt;br /&gt;Quando fui expulso do quarto onde vivia com Zau, regressei à convivência de Marcos e do russo Sasha, no andar térreo. Como Marcos e o nosso camarada não se importavam, Zau passou a viver conosco no quarto. Um dia, nos informaram que um outro estudante iria nos fazer companhia. Era um jovem sudanês, negro e sempre vestido com uma mortalha branca. Construí um beliche em cima da cama de Marcos e lá vivíamos os cinco na nossa pequena comunidade. O rapaz do Sudão era muito engraçado, inteligente e se desenvencilhava muito bem com  o russo. Tinha uma namorada que ele escondia dos seus compatriotas dizendo que era sua irmã. Desta forma, ele podia estar com ela a sós ou passear longe dos olhares alheios. Durante o dia, ele passava o tempo com ele, pelo que sempre tínhamos o quarto cheio. Apesar da força da religião, era uma pessoa como nós, com a sua cultura diferente, é claro, mas resolvendo de uma maneira muito pragmática o mesmo problema que enfrentam os católicos praticantes que fazem sexo antes do casamento. &lt;br /&gt;Nos dias de hoje, os muçulmanos em geral, com exceção de algumas monarquias que gostam de aparecer nas revistas de moda, tem regras muito definidas sobre o papel do homem e da mulher na sociedade. Na universidade, os estudantes dos países árabes eram muito machistas e, para eles, havia dois tipos de mulheres, as puras e as impuras. Se a estudante fosse casada, porém, havia  um respeito quase sagrado e eles nem se atreviam a olhar. Uma vez, convidei os cinco afegãos para tomar chá no quarto em que vivia com Zau. Eles foram se preparar enquanto coloquei um vasilhame com água no fogão da cozinha, que ficava ao fundo do corredor. Estávamos sentados a conversar quando me levanto para ir buscar a água, que já devia ter fervido, e saio do quarto quando me dou conta que os cinco saíram atrás de mim. Como Zau era a minha mulher, eles não se atreviam a ficar a sós com ela numa mesma habitação. É verdade que eles gostavam muito de seduzir as estudantes de países da América Latina, mas uma vez oficializada a relação, eles exigiam uma conduta segundo os procedimentos da sua religião. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Maxim Gorki, poeta oficial do regime, que escreveu o panfletário “Mãe” e acabou por se desiludir com o regime quando Stalin acabou com as suas viagens aos exterior. Maria Krupskaia, em homenagem a Nadejda Krupskaia, esposa de Vladimir Ilitcht Ulianov, o Lênin, pai da Revolução de Outubro. Entre os latino-americanos, na Lumumba, havia muitos que haviam sido batizados segundo o fervor revolucionário dos progenitores. Vladimir ocupava o topo da lista dos nomes utilizados, até por ser mais discreto, enquanto outros nomes eram novas criações, um fenômeno ao que parece latino-americano, como o do venezuelano Clênin, cujo pai era comunista de carteirinha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113120474114821031?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113120474114821031/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113120474114821031' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120474114821031'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120474114821031'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/lumumba.html' title='A Lumumba'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113120369334756767</id><published>2005-11-05T07:10:00.000-08:00</published><updated>2005-11-05T07:14:53.356-08:00</updated><title type='text'>Mariano, um idealista espanhol</title><content type='html'>Quando souberam que Zau e eu vivíamos há dois anos juntos no Brasil, Márcia e Neuza, duas brasileiras recém chegadas, convidaram Marli para o quarto delas. Durante um mês, moramos sozinhos, até que uma sul-africana aparece para preencher a terceira vaga do quarto. Muito simpática e liberal, como todo africano não muçulmano, não se importou que eu continuasse a viver com Zau. Porém, a alegria não durou muito, pois um professor descobriu o que se passava e me expulsou do quarto, passando a controlar a situação. Era o professor responsável pelos alunos africanos, ao passo que eu tinha também um professor responsável, o Mariano, um espanhol exilado da Guerra Civil Espanhola, que não regressou ao seu país. Mariano era uma pessoa legal, que segurou a bronca e até riu da situação, talvez por ser latino como nós. A personalidade de Mariano sempre foi meio uma incógnita. Ele aparecia frequentemente para visitar-nos, pois Zau, Marcos e eu estávamos sempre juntos. Nunca soubemos se este interesse da parte dele não era porque nós já tínhamos sido detectados como seres alienígenas no império. Parecia-nos triste e saudoso, mas ao mesmo tempo era um defensor inquebrantável do regime. Reconhecia que quem mandava no país era a linha dura do PCUS, mas acreditava que não havia outro caminho. Talvez, no fundo, Mariano fosse mesmo um daqueles grandes homens que acreditam nos ideais, ainda mais ele, que havia participado numas das guerras mais sangrentas do século passado. Questionado, garantiu que estava na URSS de livre vontade, tanto que havia já viajado à Espanha, para visitar familiares, nos anos 70. Mas admitiu que durante muitos anos, durante a ditadura stalinista, foi um prisioneiro, sem poder sair do país. De qualquer forma, Mariano nunca falhou com a gente, muito pelo contrário, concedeu-nos alguns privilégios enquanto estudantes. Por exemplo, os alunos que haviam chegado com atraso, como era o nosso caso, não teriam férias de inverno naquele ano. Mariano veio ter comigo e disse que havia sido escolhido para ler um discurso no ato de encerramento do semestre, por causa dos meus progressos com a língua russa. Além do mais, disse que liberava a Zau para as férias e ainda conseguiu um quarto só para nós na casa de descanso onde ficamos por duas semanas, a norte de São Petersburgo, que naquela época se chamava Leningrado. Delicadamente, declinei o convite do discurso, alegando não me sentir bem nestas situações, ao que o espanhol, meio contrariado, acedeu. Eu iria perder o contato com Mariano quando abandonei a universidade para estudar música. Soube depois que ele se aposentou e acabei por nunca mais ter notícias dele. &lt;br /&gt;Mariano provavelmente ficou sabendo, como eu, que Iusef Stálin havia traído os republicanos espanhóis. Com a abertura de Garbatchov, os historiadores começaram a contar a verdadeira história da URSS. Artigos em jornais especializados e programas de televisão revelaram fatos até então desconhecidos do grande público, como a política externa soviética nos anos de Stalin, que regia com mão de ferro o movimento comunista internacional. Sabe-se hoje que Stalin preferiu não apoiar devidamente os republicanos espanhóis, que lutavam contra Franco na guerra civil espanhola, em 1936, em respeito à França, que não admitia um estado socialista a ocidente, orientado por Moscou. Terão havido conversações secretas ao mais alto nível entre franceses e soviéticos neste sentido, que permitiram que tivesse lugar uma das guerras mais sangrentas do século XX, em que morreu o poeta Gabriel Garcia Lorca* e que deixou como herança para a humanidade uma das obras primas do pintor Pablo Picasso*, alusiva aos bombardeios sobre a população civil da cidade de Guernica*. &lt;br /&gt;Quando penso em Mariano, eu, que levo mais de vinte anos a viver fora do Brasil, imagino como seria estranho morrer numa terra estranha, exilado da pátria, na defesa dos ideais de uma sociedade que viria a se desfazer nos finais dos anos 80. Será que ele voltou para Espanha com o advento da perestroika? Eu bem gostaria que sim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113120369334756767?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113120369334756767/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113120369334756767' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120369334756767'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113120369334756767'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/mariano-um-idealista-espanhol.html' title='Mariano, um idealista espanhol'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115590140915905</id><published>2005-11-04T17:57:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:58:21.410-08:00</updated><title type='text'>A Praça Vermelha, o coração do império</title><content type='html'>A emoção é tão grande, com as torres coloridas da Catedral de São Basílio ao fundo da praça, as muralhas e igrejas do Kremlin e a bandeira vermelha  a pairar  soberana sobre a paisagem, que só por aquele momento já havia valido à pena a viagem até Moscou. Para ser sincero, as ogivas nucleares que os soviéticos gostavam de pavonear nos seus dias de festa combinavam na perfeição com a imponência do conjunto arquitetônico da Praça Vermelha, no coração do império soviético. Em russo, vermelho pode também significar belo, e a praça principal de Moscou passou a se chamar Krasnaya Ploshchad no século XVII por ser um lugar extraordinário e também porque os telhados dos prédios circundantes ao Kremlin era pintados de vermelho. &lt;br /&gt;O mausoléu de Lênin, de mármore marrom escuro, não chega a destoar dos outros edifícios. Antes pelo contrário, é o centro de gravidade do local, para onde todos convergem cada vez que o relógio de uma das torres marca a hora certa. A multidão aglomera-se para ver a troca da guarda, em que os soldados percorrem mais de uma centena de metros em passo de ganso e depois substituem os camaradas às portas do túmulo numa coreografia ao faz parecer aqueles bonecos dos relógios antigos de parede. Os soldados repetem mecanicamente a cena o ano inteiro, a todas as horas, inclusive durante o rigoroso inverno e as suas baixas temperaturas. &lt;br /&gt;O Kremlin é uma grande muralha triangular com 750 metros de cada lado, banhada a sul pelo rio Moscou, tendo sido construído ao longo do século XI. O conjunto de edifícios e igrejas com cúpulas bizantinas é notável, onde se destacam o Grande Palácio, junto ao muro leste, residência dos czares construída em 1838, e a Torre do Sino de Ivan, com 81 metros de altura. Junto à torre, um enorme sino quebrado, que caiu quando tentaram colocá-lo, recorda para sempre a grandiosidade da obra. O museu Armoury, o mais antigo da capital, dentro das muralhas do Kremlin, é o testemunho da opulência e da riqueza que os czares russos acumularam ao longo dos séculos. &lt;br /&gt;Fora das muralhas, a Catedral de São Basílio, com as suas nove cúpulas coloridas, mandada edificar por Ivan, o Terrível*, em 1500, para comemorar a vitória sobre os tártaros, é um monumento único. O seu arquiteto, o russo Postnik Barma, teve os olhos arrancados por ordem do sanguinolento Ivan para que não fizesse outra igual. Do lado oposto ao Kremlin, está o GUM, um edifício do século XIX, o maior centro comercial da era soviética e que hoje é um moderno centro comercial ao melhor estilo dos seus congêneres ocidentais, cheio de griffes famosas. &lt;br /&gt;Com cerca de 10 milhões de habitantes, Moscou está situada no centro da Rússia Européia, a 1300 km de distância dos montes Urais, a linha fronteiriça entre Europa e Ásia. Os dois rios que cortam a cidade fazem a ligação da região com o país inteiro, do Mar Negro ao Báltico, sendo habitada pelo homem desde tempos imemoriais. Foram os vikings, provenientes da Suécia, que se estabeleceram na região no século IX, erguendo as cidades de Nijni Novgôrod e Kiev, a primeira capital da Rússia. O Kremlin e seus arredores começaram a ser construídos ao longo do século XI, mas a fundação de Moscou é atribuída a Yury Dolgorukiy, príncipe de Suzdal, em 1147.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115590140915905?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115590140915905/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115590140915905' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115590140915905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115590140915905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/praa-vermelha-o-corao-do-imprio.html' title='A Praça Vermelha, o coração do império'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115578704253980</id><published>2005-11-04T17:55:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:56:27.043-08:00</updated><title type='text'>Agulhas para cavalo</title><content type='html'>No terceiro dia após a nossa chegada, levaram a nós, os “prepos”, para os exames médicos na policlínica da universidade, que ficava noutro lado da cidade, perto do monastério Danskoi, uma das muitas preciosidades de Moscou e lugar que viríamos a frequentar durante os nossos anos vermelhos. Desta vez, nos transportaram numa van antiga e fechada, parecida com os camburões policiais brasileiros, mas de menores dimensões. No trajeto até a policlínica, me senti um bocado prisioneiro, sensação esta que aumentou quando estacionamos no pátio da policlínica. A arquitetura pesada do edifício -  de duas construções, uma mais antiga que a outra - e a sua má conservação me faziam sentir num daqueles filmes da 2ª guerra mundial. Esta sensação de estar num filme de época esteve sempre presente durante toda a minha estada na antiga União Soviética. É que Moscou - assim como todas as outras cidades do país - ainda não tinha sido invadida pelos anúncios luminosos das grandes marcas comerciais. A capital do império soviético chegava a ser ainda mais bonita no inverno, com toda aquele neve. Claro que havia muita propaganda socialista, retratos do líder por toda a parte e aqueles famosos cartazes de propaganda, com todos aqueles desenhos de trabalhadores e camponeses unidos a marchar. Mas a iluminação era discreta, os “marqueteiros” do  regime ainda não haviam descoberto o néon. Hoje em dia, a capital da Rússia é igual à qualquer das outras grandes cidades da Europa e Estados Unidos, no que toca a letreiros luminosos. Mas, nos anos 80, antes da queda do muro de Berlim, o centro de Moscou mantinha quase o mesmo aspecto do século XIX.&lt;br /&gt;O ambulatório da policlínica ficava na parte antiga do edifício e eu não havia me enganado. Aquilo era mesmo o túnel do tempo. Pelo menos desde a última grande guerra mundial que não se faziam reformas naquela ala. E o pior, os instrumentos médicos pareciam também ser os mesmos. A certeza chegou quando entrei para tirar sangue. Claro que já estava à espera de não encontrar seringas descartáveis. O que eu já havia visto na residência estudantil da Lumumba fazia prever que não haveria grandes luxos capitalistas na minha vida em Moscou. Por acaso, eu já tinha sido apresentado à única lâmina de barbear fabricada pelos comunistas soviéticos e ela não era de aço inoxidável, mas antes igual às que o meu pai usava nos anos 60. Mas o que se passou a seguir superou todas as minhas expectativas: não havia seringas. A enfermeira mandou-me estender o braço e enfiou uma agulha de aí uns 10, 12 cm e, na outra ponta, colocou um tubo de ensaio. Fez sinal para que eu abrisse e fechasse a mão para o sangue escorrer, e deu-me o tubo de ensaio para segurar. Foi tudo tão rápido que não tive nem tempo de reagir. Num instante, me vi ali segurando o tubo de ensaio a encher-se de sangue e pensei cá comigo: “cruz, credo, aonde eu vim parar”. De repente, a chilena que viera com a gente no avião entra na sala e desmaia ao ver o tamanho da agulha. E, quando veio a si, não houve quem a convencesse a dar o braço à agulha. A enfermeira bem que tentou, mas esbarrou na cara feia da chilena, resoluta, que já ameaçava voltar para casa. &lt;br /&gt;Isto das agulhas na antiga União Soviética é um assunto que sempre me atemorizou. Antes de partirmos, ainda no Morro de São Paulo, tivera conhecimento que uma nova epidemia assolava os países do hemisfério norte. No Brasil, a aids ainda era completamente desconhecida, mas na Europa já começava a fazer os seus estragos. Eu e Zau ficamos sabendo sobre a síndroma através de uma reportagem publicada numa revista que um rapaz de Berlim Ocidental, que estivera hospedado em nossa casa, havia deixado por lá. Passados dois anos, no Brasil a aids ganhava terreno e os soviéticos continuavam a utilizar seringas não descartáveis. O medo sempre existiu e o risco, também.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115578704253980?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115578704253980/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115578704253980' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115578704253980'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115578704253980'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/agulhas-para-cavalo.html' title='Agulhas para cavalo'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115568531990258</id><published>2005-11-04T17:53:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:54:45.323-08:00</updated><title type='text'>A primeira noite na URSS</title><content type='html'>Até hoje, quando escuto o hino da ex-URSS, lembro-me dos primeiros tempos em Moscou. Anos mais tarde, consegui comprar o disco, da editora Melódia, uma raridade no mercado moscovita de discos em vinil, mas dei-o de presente ao Humberto Gessinger, dos Engenheiros do Hawaii, quando eles estiveram por lá, já nos tempos da Perestroika, e nunca voltei a encontrá-lo. A música é linda, tanto que os russos, anos após a queda do império, resgataram o hino mas com uma letra diferente, tirando as referências à revolução e ao seu progenitor, Vladimir Ilitcht Ulianov, o Lênin. &lt;br /&gt;Após uns vinte minutos à espera no saguão da residência, chegou um russo alto e forte e anunciou que eu e Marcos iríamos para o seu quarto. Quanto à Zau e à Marli, havia outro para elas no quarto andar. Seguimos o russo ao porão do edifício para buscar as nossas camas e colocá-las no nosso quarto, que seria o de nº 168, no térreo, bem ao fundo do corredor do lado esquerdo do prédio. O “nosso” russo - era o primeiro que conhecera e seria nosso parceiro de quarto - era o responsável pelo andar, uma coisa da juventude comunista na organização da residência. Depois, fomos buscar os cobertores, lençóis e travesseiros, acompanhados pela “chefe” da residência, uma russa gorda, vestida com um casaco preto que era o traje típico de inverno do trabalhador soviético. &lt;br /&gt;Instalados, fomos procurar Zau e Marli, que estavam no 467. Lá, conhecemos outras três brasileiras que haviam chegado há mais tempo, no início das aulas. Nós éramos os últimos a chegar, com um mês de atraso (ao todo, éramos sete os novos brasileiros naquele ano na universidade. As aulas já havia começado e tínhamos que correr para poder entrar no ritmo das aulas). Entre uma xícara e outra de chá, um velho costume nos países do Leste Europeu e Ásia, apareceram mais uns três ou quatro compatriotas, para conhecer os “prepos” (da faculdade preparatória), e ficamos a conversar. Aliás, seria assim durante todos os primeiros dias no continente vermelho. Quase todos os brasileiros que viviam em Moscou apareceram para nos nossos quartos. Mais tarde, percebi que essas visitas não eram de todo inocentes. Mas naquele dia a coisa foi simpática. Todos nos tratavam com uma certa euforia, para que nos sentíssemos bem naqueles primeiros tempos. &lt;br /&gt;Aos poucos, viemos a saber que o “coletivo” brasileiro - era assim que chamavam - era dividido entre o pessoal que rondava à volta da célula do PCP em Moscou e aqueles que frequentavam o reduto da família de Luís Carlos Prestes, então ex-líder histórico do Partico Comunista Brasileiro, o “Partidão”, mas que era ainda tratado pelos comunistas soviéticos como um verdadeiro chefe-de-estado. Os brasileiros apareciam para nos sondar. Para auscultar o que pensávamos. Mas Zau, Marcos e eu, que tínhamos as nossas conversas à parte, resolvemos logo deixar bem claro a nossa posição. Não éramos contra o comunismo - Marcos até era membro do PCP na Bahia, mas na Bahia o PCP é outra história - mas não alinhávamos com o modelo soviético. Esta nossa atitude acabou por nos separar um pouco da turma brasileira (o que foi bom), até porque eu não estava lá para falar a minha própria língua e sim aprender russo. &lt;br /&gt;Cerca das onze da noite, resolvemos deixar as meninas (pela primeira vez Zau e eu dormiríamos separados, desde que nos conhecemos) e fomos para o nosso quarto. Como não havia despertador, a única solução era deixar o rádio ligado, um pequeno aparelho com uma frequência só e que ligava a uma tomada na parede. Transmitia a Rádio Moscou e não havia alternativas. Todos os dias, a emissão encerrava à meia-noite com o hino da ex-URSS numa versão instrumental. Às seis da manhã, novamente aquela música, noutra gravação, com um coro a entoar palavras que eu ainda não conhecia. Naquela noite, depois de ouvir o hino pela primeira vez, no silêncio do quarto, pensei comigo: “é a primeira vez que vou dormir quase do outro lado do planeta”. Um frio me percorreu a espinha. Será que era aquilo mesmo que eu queria? Estar num lugar totalmente diferente do que eu imaginara, numa espécie de reformatório para refugiados do terceiro mundo, sentindo-me vigiado? Aquele russo alto e forte - Sasha, diminutivo de Alexandre em russo -, que dormia ali ao lado, bem podia ser um espião. Ou, no mínimo, um camarada pronto para nos ensinar o caminho certo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115568531990258?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115568531990258/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115568531990258' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115568531990258'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115568531990258'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/primeira-noite-na-urss.html' title='A primeira noite na URSS'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115561527255772</id><published>2005-11-04T17:52:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:53:35.276-08:00</updated><title type='text'>Fria recepção</title><content type='html'>Ao desembarcarmos, fomos recebidos por dois brasileiros da associação de estudantes da universidade. Foi um alívio, porque eu não conhecia nenhuma letra do alfabeto russo, ao contrário de Zau, que andara a estudar sozinha no ano anterior, na esperança de ganhar a bolsa. Além do mais, nem sequer sabíamos onde ficava a universidade nem como lá chegar. Por isso, os membros da associação brasileira encarregavam-se de, nos primeiros tempos, orientar os calouros de cada ano. Ajudavam com os testes preparatórios, levavam-nos a comprar coisas nas lojas, acompanhavam-nos para todo o lado. Só que a primeira impressão foi péssima. Robson, o mais baixinho deles, barba e cabelo comprido, era um arrogante típico. O outro, Ivanildo, um gorducho forte e cabeludo, à primeira vista pareceu inofensivo. Viemos a saber mais tarde que os dois eram membros do Partido Comunista Brasileiro e que Robson era o representante máximo no pedaço. No nosso voo havia porém mais uma brasileira e tivemos que esperar até que ela saísse. O seu nome era Marli e seria colega de Zau na medicina. À nossa espera, estava um microônibus, com um motorista da universidade. &lt;br /&gt;O aeroporto Sheremeetiva II está a cerca de 40 minutos de Moscou e, por isso, nos esperava uma pequena viagem. Ao sentarmo-nos no veículo, fui logo parar a um lugar junto à janela, atrás do motorista. Aliás, tem sido sempre assim comigo. Quando entro em algum meio de locomoção, seja ele navio, trem ou avião, procuro sentar-me sempre em algum lugar estratégico, o que para mim significa um lugar onde possa observar tudo, principalmente o exterior. Não via a hora de conhecer aqueles prédios clássicos que eu imaginava da arquitetura de Moscou. &lt;br /&gt;Pela janela, já na auto-estrada, só vislumbrava árvores e a conversa dos brasileiros que vieram nos buscar já começava a chatear-me. O pequeno Robson só sabia gabar-se dos êxitos do socialismo e da nova sociedade que iríamos conhecer. Como em nossa bagagem havia cerca de 80 discos em vinil, perguntou se havia algum da Banda do Canecão. Respondi-lhe que não e, para provocar, acrescentei que tinha quase todos os do Caetano Veloso. “Ah, sim, aquela bicha”, disse, num tom jocoso, aquela coisa petulante, com barba e cabelo à Che Guevara. Irritei-me mais ainda e voltei a olhar para a janela, à procura dos prédios que me indicassem que estava a chegar a Moscou. &lt;br /&gt;À minha esquerda, continuava a só ver árvores com folhas amareladas, à beira da estrada, em bosques a perder de vista. De repente, o pequeno ônibus vira à direita, entrando numa avenida de onde pude avistar, ao longe, pequenos edifícios com cerca de cinco andares, perdidos no meio da mata, pré-fabricados em betão. O nosso transporte anda mais meio quilômetro e vira de novo, só que desta vez à esquerda. Entramos por um caminho cercado de pinheiros e, duzentos metros depois, a carrinha parou em frente ao prédio da residência estudantil para os estudantes da faculdade preparatória. “Chegamos”, disse Robson, e começamos a descarregar a nossa bagagem, que era imensa. &lt;br /&gt;Ainda antes da viagem, no aeroporto internacional de Buenos Aires, no balcão da Aeroflot, foi necessário convencer as funcionárias da companhia, russas que falavam espanhol, para que nos deixassem embarcar com quase cem quilos a mais do peso permitido - que na altura era de vinte quilos por pessoa -, o que nos dava direito, à mim e à Zau, a apenas quarenta quilos. Como estávamos duros, não havia o que negociar. Até que uma delas, por bondade, disse à outra que era melhor deixar passar pois, se não tínhamos dinheiro, não havia outra alternativa.&lt;br /&gt;E agora descarregávamos as nossas imensas malas para o saguão do edifício, por entre portas que não paravam de abrir e fechar, com estudantes a sair e a entrar constantemente. Foi o nosso primeiro contacto com a fauna estudantil da Universidade da Amizade entre os Povos Patrice Lumumba (eis o nome inteiro da dita) que, na altura, era destinada a acolher estudantes de cento e sete países do terceiro mundo. Muçulmanos, árabes e africanos, vestidos de branco, com uma espécie de mortalha, ou latino-americanos, com cara de índio, cruzavam por nós, sem prestar muita atenção aos novos colegas. &lt;br /&gt;Éramos seis, quatro brasileiros e dois chilenos que haviam chegado no mesmo voo. Ficamos à espera de que fossem informar a nossa presença, o que demorou algum tempo. Para dizer a verdade, a primeira impressão foi decepcionante. O saguão do edifício era sujo, as paredes mereciam levar uma carga de tinta, os sofás eram peças de museu. Havia uma parede grande, coberta por uma imensa cortina vermelha, envelhecida, como se a tivessem colocado ali há uma vintena de anos. Frente à cortina, impávido e colosso, pairava um enorme busto de Lênin, em gesso branco. Aquela imagem iria me perseguir em todos os edifícios públicos em que entrei durante todos os quase sete anos em que vivi na extinta União Soviética, de 1983 a 1990.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115561527255772?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115561527255772/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115561527255772' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115561527255772'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115561527255772'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/fria-recepo.html' title='Fria recepção'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115545101060462</id><published>2005-11-04T17:47:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:50:51.010-08:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/879/1832/1600/sashaisa.jpg"&gt;&lt;img style="float:left; margin:0 10px 10px 0;cursor:pointer; cursor:hand;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/879/1832/320/sashaisa.jpg" border="0" alt="" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isa e Sasha em Moscou&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115545101060462?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115545101060462/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115545101060462' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115545101060462'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115545101060462'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/isa-e-sasha-em-moscou.html' title=''/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115523655590840</id><published>2005-11-04T17:45:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:47:16.556-08:00</updated><title type='text'>CRUZAR A CORTINA DE FERRO</title><content type='html'>Passar pelos postos de fronteira dos países socialistas era uma experiência marcante e inesquecível. E também muito cansativa, pois se esperava muito tempo na fila. Tanto fazia se estávamos prestes a ingressar na antiga RDA (ex-Alemanha comunista), em Cuba ou na ex-URSS. O procedimento era o mesmo. Os agentes alfandegários eram treinados para descobrir eventuais espiões e, quando entregávamos o passaporte, começava o ritual. O sujeito olhava para a nossa fotografia e para o nosso rosto. Perscrutava todos os detalhes da fisionomia do candidato a entrar no país e comparava com a foto do passaporte. Em média, ficava-se ali cerca de cinco minutos, à espera do carimbo final. Este compasso de espera era causador de grande nervosismo, pois não se sabia o que iria acontecer caso não gostassem da nossa cara. &lt;br /&gt;Se algo de suspeito fosse encontrado na nossa bagagem, um agente da KGB era chamado para dar uma olhada no material. Havia uma lista de livros, autores e compositores de música proibidos na ex-URSS, uma espécie de índex do Vaticano mas de contornos nada religiosos. Da primeira vez que cheguei a Moscou, não fui revistado e pude entrar com cerca de 80 discos em vinil. Três anos mais tarde, quando regressava das férias no Brasil, detetaram os discos que levava comigo e o operacional da secreta soviética foi chamado. Extremamente simpático, o polícia fazia comentários quando encontrava algum disco seu conhecido, tipo “eh, este é mesmo bom”. Fiquei com a impressão de que o agente da KGB quis deixar claro que, apesar de estar a cumprir ordens, era um homem com sensibilidade e profundo conhecedor da cultura pop ocidental.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115523655590840?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115523655590840/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115523655590840' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115523655590840'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115523655590840'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/cruzar-cortina-de-ferro.html' title='CRUZAR A CORTINA DE FERRO'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115513400913533</id><published>2005-11-04T17:43:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:45:34.020-08:00</updated><title type='text'>OS PRIMEIROS RUSSOS</title><content type='html'>Após termos decolado de Dakar, um engenheiro russo, falando muito bem o espanhol, aproximou-se de nós e puxou conversa, não nos largando até o pouso final em Moscou. Ele, juntamente com as dezenas de russos que ocupavam a parte traseira do avião, tinha estado a trabalhar os últimos seis meses numa plataforma marítima na Venezuela como trabalhador altamente qualificado. Segundo nos explicou, o governo soviético recebia em dólares pelos seus serviços mas pagava-o em rublos, a moeda oficial do país. Só tinha direito a uma pequena parte do salário em divisas estrangeiras. De qualquer modo, era, segundo os padrões soviéticos, um trabalhador muito bem pago. O seu salário mensal rondava os seis mil e quinhentos rublos, o que, segundo o próprio admitiu, era muito dinheiro para um cidadão soviético. Não era a primeira vez que trabalhava fora da URSS. Já havia estado antes na Venezuela e também trabalhara vários anos no Iraque, sempre em temporadas de cerca de meio ano, com obrigatórias férias de alguns meses passadas em casa ou em alguma estância balnear ou casa de repouso. &lt;br /&gt;Segundo o nosso novo amigo, o governo soviético subvencionava milhares de parques de descanso, para os trabalhadores passarem as suas férias, sempre diminutas, nos poucos meses do verão da Rússia. Mas o acesso a essas casas de repouso era difícil. Na sua vida inteira, um cidadão soviético não descansava mais do que uma ou duas vezes numa casa dessas. A população da antiga URSS era superior três ou quatro vezes a do Brasil e as listas de espera eram eternas. Os membros do Partido Comunista Soviético, que eram milhares, tinham preferência na hora de passar as férias na praia. A Costa do Mar Negro foi, desde os tempos imperiais, o destino preferido dos russos nos meses do Verão. O secretário-geral do PC Soviético, como uma tradição herdada dos antigos czares russos, desde Vladimir Lênin, o pai da revolução de Outubro de 1917, até Garbatchov, também sempre passou férias na Criméia, uma pequena península no Mar Negro. &lt;br /&gt;Como um verdadeiro russo, o nosso amigo foi à cabine do piloto e trouxe um aguardente de confecção caseira, que fomos bebendo durante todo o caminho. A conversa decorreu de uma forma simpática, até porque - e isto vim a saber depois - os russos sempre gostaram muito de conviver com estrangeiros. Apesar do salário elevado, aquele engenheiro pensava em não voltar a trabalhar no exterior. Já tinha juntado algum pé-de-meia e precisava ficar mais tempo em casa para manter o casamento. Disse com a maior naturalidade que, na Rússia, quando um marido se ausenta por muito tempo, a mulher sempre arranja outro. Os setenta anos de regime comunista haviam aparentemente acabado com a noção de pecado entre os russos. Descobri mais tarde que eles, à sua maneira, tinham as mesmas angústias e ambições que nós, ocidentais. E uma religiosidade latente e reprimida, que acabaria por explodir. &lt;br /&gt;O primeiro contacto com o povo soviético foi com os trabalhadores no avião. Eram todos muito altos, fortes e comportavam-se de uma maneira diferente da nossa. De aparência e gestos rudes, não evitavam  o contato físico. Naqueles estreitos assentos, dormiam amontoados uns aos outros. Ao conversar, batiam-se e empurravam-se. Eram todos muito simpáticos conosco. Nós e mais quatro chilenos, que estavam sentados bem mais à frente naquela  imensa aeronave de fabrico soviético, éramos os únicos estrangeiros no meio daquela multidão de russos. No final do voo, os que estavam sentados perto de nós recolheram o queijo e a mortadela que haviam servido durante o voo e nos deram, dizendo que nós, como estudantes, iríamos precisar. A bolsa que nos dariam na universidade não deveria ser grande coisa, disseram.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115513400913533?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115513400913533/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115513400913533' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115513400913533'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115513400913533'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/os-primeiros-russos.html' title='OS PRIMEIROS RUSSOS'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115386796056389</id><published>2005-11-04T17:22:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:24:27.970-08:00</updated><title type='text'>SAÍDA CLANDESTINA DO BRASIL</title><content type='html'>A nossa ida para a URSS era algo complicada. Apesar da abertura nos finais do governo do presidente João Figueiredo, o país ainda vivia sob um regime militar. Só o fato de mencionar que iríamos estudar em Moscou assustava as pessoas. A minha mãe, quando soube, a primeira coisa que fez foi perguntar se eles, os russos, me deixariam sair depois de terminar os estudos. Por isso o nosso abandono do país ocorreu de maneira algo sigilosa. Só contamos a verdade à família e amigos mais próximos. Numa viagem terrível de três dias em ônibus, deixamos a Bahia com destino a Porto Alegre, onde ficamos uma semana e esperamos por Marcos, que connosco empreenderia a viajem até Buenos Aires, local do nosso voo. Como a companhia soviética de aviação, a Aeroflot, não operava no Brasil, a única hipótese era a vizinha argentina. &lt;br /&gt;Na embaixada soviética, onde fomos retirar o visto que nos esperava, sucedeu-se o nosso primeiro esbarrão com a lógica burocrática que fazia do cidadão comum soviético um ser inferior em relação aos funcionários dos balcões de atendimento ao público. A mulher que nos recebeu, uma russa gorda de meia idade, ao verificar que não tínhamos trazido caneta para preencher o formulário, lascou de imediato, em espanhol com forte acento: - “Vocês vão estudar e não trazem caneta”? Foi um verdadeiro balde de água fria no nosso entusiasmo e uma pequena amostra do que nos esperava. Dentro de pouco, iríamos estudar numa das sociedades mais fechadas que o homem já concebeu. Foi neste momento em que pressenti que eu finalmente ia conhecer o Big Brother. &lt;br /&gt;A estada em Buenos Aires foi extremamente agradável. Em três dias, gastamos uns trezentos dólares que o meu pai me dera antes de partir. Ficamos em um hotel de quinta categoria perto da zona portuária e fomos conhecer a cidade. Marcos não tinha dinheiro nenhum e eu paguei o quarto para ele. Sempre fui assim. Posso estar na maior penúria em dinheiro mas sempre tento ajudar as pessoas. O dinheiro serviu para nos divertimos à grande nos três dias em que passamos na capital argentina. Foram momentos de grande emoção, com um sentimento de despedida. &lt;br /&gt;Nenhum de nós fazia planos de terminar os estudos em Moscou. Seriam muitos anos e ninguém sabia o que nos esperava. Mas já que nos davam uma passagem até ao continente vermelho, por que não aproveitar? Falávamos em aprender a língua e voltar, eu e Marcos. Zau, mais comedida, não descartava a hipótese de vir a tornar-se médica. Para mim, não fazia diferença nenhuma, o curso de Agronomia não me atraía assim tanto e eu só pensava em conhecer a Praça Vermelha. &lt;br /&gt;Jantamos num restaurante chinês e fomos conhecer a noite de Buenos Aires. A Calle Florida, principal ponto de agitação, era um frenesim constante, algo assim como São Paulo às quatro da tarde. As eleições presidenciais que iriam eleger Raul Alfonsin aproximavam-se e o tema estava na ordem do dia nas conversas. No meio da rua, uma pequena multidão discutia política. Era incrível a organização dos argentinos. Defendiam os pontos de vista com veemência e o sangue parecia subir-lhes a cabeça. Mas o que mais impressionava era a maneira ordenada com que faziam a coisa. No meio das pessoas, havia um homem que era uma espécie de moderador. Ele comandava a discussão. Passava a palavra, controlava o tempo das intervenções. E ninguém desacreditava a sua autoridade. Com Marcos, comentei como eram os argentinos um povo muito mais politizado que o brasileiro. &lt;br /&gt;O nível de vida, na Argentina, sempre foi mais alto do que no Brasil. Após a segunda guerra mundial, o governo de Perón alimentou a Europa com grãos. Buenos Aires é uma cidade bela e cheia de avenidas largas. No início do século passado, fizeram uma reforma geral no centro da cidade e alargaram as ruas, construindo grandes edifícios em estilo neo-clássico, contou-nos um argentino que conhecemos e nos acompanhou parte do caminho de regresso ao hotel. Neste trajeto, vi pela primeira vez a Casa Rosada, sede do governo argentino, cujos balcões (sacadas) serviram de palco para os discursos inflamados de Eva Perón. &lt;br /&gt;Na minha cabeça, ficou a milonga que ouvimos, do lado de fora da rua, junto a uma multidão, num restaurante da Calle Florida. Um guitarrista e uma cantora deram um show que deixou a todos extasiados, inclusive nós. A forma como eles vivem a sua cultura e o seu patriotismo é uma coisa extremamente passional. Eu, que sou gaúcho e sempre conheci o tango, fiquei emocionado. Os dois baianos ficaram embasbacados. Os argentinos gritavam após cada dedilhado, cada acorde da canção. Depois, no quarto do hotel, com aquela música ainda na cabeça, Zau e eu fizemos amor num colchão cheio de molas que mais parecia um mar revolto. Foi o que chamamos de a “última foda no continente sul-americano”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115386796056389?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115386796056389/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115386796056389' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115386796056389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115386796056389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/sada-clandestina-do-brasil.html' title='SAÍDA CLANDESTINA DO BRASIL'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115333111636064</id><published>2005-11-04T17:13:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:15:31.120-08:00</updated><title type='text'>ADEUS AOS TRÓPICOS</title><content type='html'>Quando ganhei um bolsa para estudar na URSS, eu vivia com Zau, cujo verdadeiro nome é Maria do Rosário, em Morro de São Paulo, perto de Valença, na Bahia. Quatro meses antes, juntamente com uma amiga, Xexéu, havíamos comprado uma parcela de terra na ilha com o objectivo de viver naquele local paradisíaco mas selvagem, concretizando um típico sonho de jovem da classe média brasileira que tenha passado pelo seu período de bicho-grilo lá por finais dos 70. Tínhamos decidido viver de artesanato e de alguma agricultura, se pudéssemos. &lt;br /&gt;A notícia da bolsa apanhou-nos completamente de surpresa. Naquela época, o Brasil não tinha relações culturais com a URSS e o pedido da bolsa foi feito através do Partido Comunista Brasileiro. A solicitação havia sido entregue no ano anterior, numa altura em que ainda vivíamos em Salvador, a um jovem que também havia estudado em Moscou e era membro do PCP. Tivemos que escrever uma carta em nome do reitor da universidade e explicar por que gostaríamos de viver na União Soviética. Enviamos também umas fotografias 3x4 que tiramos num lambe-lambe do Pelourinho, em Salvador. Na altura, não obtivemos resposta, o que nos fez pensar que o nosso pedido tinha sido rejeitado. Mais de um ano depois, em finais de agosto de 1983, quando estávamos no meio do mato, de partida para um passeio ao centro da ilha,  aparece-nos de surpresa a mãe de Zau. Tinha viajado desde Salvador, enfrentado duas horas em barco pelo rio desde Valença, percorrido alguns quilómetros de trilha na mata, morro acima, para nos dar a notícia da bolsa. Dona Alzira estava toda exausta mas contente. A sua filha iria estudar Medicina e eu, Agronomia. Em russo. &lt;br /&gt;No período que antecedeu à nossa partida, eu tentei recolher informações sobre a vida na URSS, mas havia pouco material disponível. Não me preocupei em levar comigo muitas coisas que depois viriam revelar-se necessárias porque achei que em Moscou havia de tudo. Eu pensava que, se a União Soviética disputava de igual para igual com os Estados Unidos o controle do mundo, se enviava astronautas para o espaço e construía estações orbitais, então deveria ser um país superdesenvolvido. &lt;br /&gt;A imagem que eu guardava dos russos desde a infância era a dos atletas das Copas do Mundo, altos, loiros e fortes, com uma camiseta vermelha escrita CCCP (quando criança, eu também me perguntava por que razão os jogadores de futebol russos tinham nomes como Smirnov ou Balakov, com a mesma terminação. Cheguei a pensar, coisa de miúdo, que eram todos comunistas e, portanto, deveriam chamar-se todos da mesma forma). Na memória recente, guardava as imagens do filme norte-americano Reds, dirigido e protagonizado pelo Warren Beaty, e que conta a história do jornalista John Reed, que presenciou os dias da revolução russa e é o único cidadão estrangeiro que está sepultado nas muralhas do Kremlin (o filme é baseado no livro “Os dez dias que abalaram o mundo”, e conta ainda com Diane Keaton e Jack Nicholson). Para falar a verdade, eu não tinha a menor ideia do que iria encontrar ao desembarcar em Moscou. &lt;br /&gt;O ex-estudante da Patrice Lumumba que tratou dos papéis da bolsa para nós não foi capaz de dar uma informação que nos fosse útil. Membro do extinto Partido Comunista Brasileiro, esteve mais empenhado em vangloriar-se com os êxitos do socialismo nos poucos contactos que mantivemos. Não soube, por exemplo, alertar-nos para o facto de que o dólar no câmbio negro em Moscou valia muito mais do que no câmbio oficial. Se tivéssemos tomado conhecimento desse fato com antecedência, talvez os primeiros tempos na capital soviética não tivessem sido tão modestos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115333111636064?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115333111636064/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115333111636064' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115333111636064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115333111636064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/adeus-aos-trpicos_04.html' title='ADEUS AOS TRÓPICOS'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115279055733023</id><published>2005-11-04T17:05:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T17:06:30.556-08:00</updated><title type='text'>No meio do conflito</title><content type='html'>No aeroporto em Dakar, verificou-se um pequeno incidente com militares ingleses, bastante significativo do clima da época, em que eu, a dado momento, pensei que ficaria no meio de um fogo cruzado. Viria a descobrir mais tarde que os soviéticos eram muito rígidos na questão dos horários. Os trens, os aviões, os transportes públicos saíam todos na hora estipulada. E foi este rigor dos soviéticos que quase criou um incidente de consequências imprevisíveis. &lt;br /&gt;Pelo plano de voo do avião soviético, deveríamos ficar na capital senegalesa apenas uma hora. Como fazia muito calor, e o embarque era feito a pé, desde a sala de espera até o aparelho, e reinava a desordem no aeroporto, ficamos por ali a vaguear, pela pista, eu, Zau, uma baiana com quem eu vivia há já uns dois anos, e Marcos, um rapaz de Salvador que também ganhara, como nós, uma bolsa de estudos para a Universidade Patrice Lumumba, em Moscou. Eis que de repente um avião militar inglês, um Hércules C-130, aterrisou e começou a descarregar bem no meio da pista. &lt;br /&gt;Com a chegada do avião britânico, a pista foi evacuada e tivemos que ir para dentro do pequeno edifício do aeroporto, que logo se tornou um inferno por causa do calor e das centenas de passageiros do nosso e de outros voos. A determinada altura, o piloto russo, que cumpria ordens rigorosas, resolveu que era chegada a hora de acabar o intervalo e seguir viagem, mas esbarrou em soldados da força aérea real inglesa, que literalmente havia tomado o aeroporto. Os ingleses diziam que só depois de terem acabado o que tinham vindo fazer é que poderíamos embarcar. Nos aproximamos, Marcos, Zau e eu, e ficamos atrás daquele russo enorme, segurando as nossas coisas, à espera do desenrolar dos acontecimentos. A multidão fez o mesmo e isto deu força ao comandante, que se sentiu ainda mais cheio de razão. Com a discussão, gerou-se um clima de alta tensão. O russo já estava com o dedo na cara de um soldado inglês a ameaçá-lo quando, de repente, tomou coragem, forçou a barreira e irrompeu pátio adentro. &lt;br /&gt;Seguimos colados ao homem, com os demais passageiros atrás. Pela frente nos esperava o pior. O nosso avião estava do outro lado da pista, atrás do Hércules inglês, que estava todo cercado por soldados. Caminhamos cerca de 100 metros até chegar à aeronave nos perguntando sobre o que fariam aqueles soldados numa provável missão militar, descarregando sei lá o que de importante, quando tivéssemos que nos cruzar. Foi realmente um ato de ousadia aquele. Passamos por debaixo da asa de uma daqueles aviões de guerra que eu só havia visto em filmes. &lt;br /&gt;Eu tinha a certeza que eles não atirariam numa multidão indefesa, mas as coisas andavam tensas desde que um Mig soviético abatera, três semanas antes, um boeing 747 da companhia coreana KAL que havia se desviado da rota perto da ilha de Sacalina.  Com a morte dos 260 ocupantes do aparelho, a comunidade internacional havia condenado veementemente o incidente e o clima, na altura, era de quase confrontação. Moscou alegara que o avião estava em missão de espionagem. Ao passarmos a barreira militar, suspirei de alívio. A viagem ia continuar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115279055733023?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115279055733023/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115279055733023' title='1 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115279055733023'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115279055733023'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/no-meio-do-conflito.html' title='No meio do conflito'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18662232.post-113115208766755099</id><published>2005-11-04T16:53:00.000-08:00</published><updated>2005-11-04T16:54:47.676-08:00</updated><title type='text'>A QUEDA DO IMPÉRIO</title><content type='html'>Sobrevoando Moscou&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O avião dava voltas e mais voltas. A uma altura relativamente baixa, ficou voando em círculos durante uns quarenta minutos. Pela janela, sentado numa das últimas poltronas do lado direito da aeronave, eu procurava visualizar qualquer coisa que me desse certeza de que estava chegando à capital do império soviético. Mas não conseguia enxergar nada para além de uma hidreléctrica, um grande rio que cortava a paisagem, e muita vegetação, com imensos bosques a perder de vista. O tom amarelado das árvores do que deveria ser os arredores de Moscou me fazia pressentir o frio que enfrentaria. A 28 de Setembro de 1983, depois de um voo pela Aeroflot de quase 30 horas a partir de Buenos Aires, com paragens em Dakar, no Senegal, e Budapeste, na Hungria, chegava finalmente ao aeroporto internacional Sheremeetiva II. No poder no Kremlin, naquele início de década, estava Iuri Andropov, um homem da linha dura do partido comunista soviético e que tinha comandado o KGB no tempo de Leonid Brejnev. Eram ainda os tempos obscuros da Guerra Fria e pouco se sabia do que se passava atrás da cortina de ferro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18662232-113115208766755099?l=sashacavalcante.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/feeds/113115208766755099/comments/default' title='Post Comments'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18662232&amp;postID=113115208766755099' title='0 Comments'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115208766755099'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18662232/posts/default/113115208766755099'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://sashacavalcante.blogspot.com/2005/11/queda-do-imprio.html' title='A QUEDA DO IMPÉRIO'/><author><name>sasha cavalcante</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12331730033946410608</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry></feed>
